Filosofia

Lucrécio e as perturbações da alma no neoliberalismo

Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra

Nada, portanto, volta ao nada; tudo volta,
pela destruição, aos elementos da matéria.*

Átomos… – Tudo se transforma, infinito movimento de criação e destruição de corpos: a vida. O Universo, as galáxias, as estrelas, os oceanos, os animais, as árvores, o fogo, as geleiras, os odores, os beijos, os vulcões, os sons, as flores, as civilizações, o australopithecus,os homens sepultados em seus ternos cinzentos e as moscas… A vida é infinita, os corpos finitos. Composição de átomos formam corpos mortais que se relacionam e trocam átomos, gerações e mais gerações passam num átimo de tempo, e apesar dos lírios funerários, tudo se renova. Como pode algo tão maravilhoso causar tanta dor: o universo é de uma crueza cheia de luz e abismo. Mortais, aceitem: alegria se mistura com violência e paixão. Morrer? Não, transformamo-nos à luz das estrelas, apesar de tudo. – … e Vazio.

Tito Lucrécio

Lucrécio foi um romano discípulo de Epicuro, amante do pensamento grego, cuja força se faz presente, antecipadamente, em muito da física contemporânea. Spinoza e Nietzsche beberam muito dessa fonte. Sua obra, escrita toda em latim, é conhecida como Da Natureza (De Rerum Natura), uma das coisas mais belas já produzidas pelo pensamento. Escrita em forma de poema, contempla uma Física e uma Psicologia, uma teoria especulativa – a explicação da natureza, seus princípios e leis que regem o universo e todos os seres – e uma prática filosófica que diz respeito à alegria de viver, para isso é necessário as inquietações da alma¹: a grande questão de Lucrécio talvez seja combater o medo como subproduto das superstições, levando os homens a viverem em estado de terror, que para ele é pior que a dor física. A ética em Lucrécio nos diz sobre uma liberdade e um prazer de viver, e para isso precisamos conhecer nossa natureza para poder nos afastar daquilo que nos atormenta.

Quando a vida humana, ante quem a olhava, jazia miseravelmente por terra, oprimida por uma pesada religião, cuja cabeça, mostrando-se do alto dos céus, ameaçava os mortais com seu horrível aspecto, quem primeiro ousou levantar contra ela os olhos e resistir-lhe foi um grego, um homem que nem a fama dos deuses, nem os raios, nem o céu com seu ruído ameaçador, puderam dominar; (…) [Lucrécio ataca aqui os modelos monoteístas que ameaçavam Roma e aqui ele também faz um elogio a Epicuro.]

Tudo são compostos. Átomos dançam no caos, fazem amor no vazio², possuem suas velocidades e propriedades, tecem das galáxias aos grãos de areia – atualizações de forças. Lucrécio afasta-se de qualquer universal, o mundo é caos e o céu é vazio. Temer a morte? Não há o que temer se não caímos no falso infinito de duração da alma. Somos partes de um todo, mas esse todo não é um agrupamento de partes, ele é em si mesmo um perpétuo movimento, um vazio (criador) onde átomos colidem uns com os outros formando corpos. O serem Lucrécio já é plural, nenhuma gota do oceano tem a mesma composição, nem as partes dos nossos corpos são iguais entre si. Não precisamos esperar chegar a modernidade para declarar que o homem não é o centro do universo, já perdemos o centro em Lucrécio, entre os seres não há nenhuma hierarquia.

Lucrécio não corre dos fluxos, sua ética vai se constituir neste mundo e não em outro com atributos superiores a serem alcançados. Como o homem não está em vias de exercer domínio sobre a natureza, esta filosofia é, no fundo, uma prática de viver. Busca-se uma sabedoria capaz de controlar as paixões e nos afastar das superstições (ignorância em Spinoza) que deixam a alma em estado de inquietação. No fundo, é evitar as dores, as angústias, os medos, os tormentos que nos distancia da alegria de viver. A natureza da qual fazemos parte é distributiva, já tem uma potência intrínseca e produz realidade através de nós – e apesar de nós.

Pouco é necessário, naturalmente, pelo que diz respeito ao corpo: tudo o que suprime a dor pode dar-lhe ao mesmo tempo numerosas delícias. E, entretanto, a própria natureza não exige nada mais agradável: se não temos na casa estátuas douradas de jovens segurando na mão direita lâmpadas ardentes que dêem luz aos banquetes noturnos, se a casa não refulge com a prata nem rebrilha com o ouro, se não ressoam as cítaras pelas salas lacadas e douradas, não exigem os corpos grandes bens desde que estejam deitados sobre a branda relva, perto de um rio de água corrente, à sombra de uma alta árvore, sobretudo quando o tempo sorri e a estação do ano adorna de flores as ervas verdejantes. E as febres ardentes não se afastam mais depressa do corpo por se estar agitado sobre tapetes bordados e sobre a rubra púrpura do que por nos termos de deitar num pano plebeu.*

Capitalismo e as perturbações da alma

O que um romano tão antigo tem para dizer sobre o corpo piedoso e miserável do homem ocidental, entediado e culpado, deprimido e paranoico? É o que queremos pensar. Ora, o capitalismo em sua versão neoliberal elevou as perturbações da alma em tempo integral.Nossa consciência já sabe a rotina: fique atento, use suas cinco ou oito horas de sono diário para estar mais produtivo amanhã, não há tempo para sonhar, embriagar-se e escrever versos vadios pelas madrugadas, preocupar-se, preocupar-se… o amanhã não tarda e tempo é dinheiro! Que condição miserável que nós, os de alma privatizadas, nos encontramos. Voltemos aos antigos para respirar novos ares, pois nem tudo se resume a Platão, Sócrates, Aristóteles e Cristo. Depois de Lucrécio nossas vidas tacanhas são forçadas a criar outras composições.

A dor não é o grande obstáculo do prazer, mas quando ela se multiplica a nossa alma cai em tristeza profunda. É algo muito potente o que Lucrécio vai nos dizer: o nosso maior inimigo vem de nós mesmos, vamos sendo dominados de dentro à medida que vamos nos relacionando com superstições ou ilusões que nos separam daquilo que podemos. Essas causas inadequadas das quais nos relacionamos e produzem efeitos em nós, iremos chamar de fantasmas³. A natureza não para de produzir fantasmas, isso não é problema, o problema é quando nós fixamos o fantasma enquanto realidade autônoma. No fundo, fantasma é o efeito tomado como causa, é o movimento fixado em uma imagem. Paulo, por exemplo, criou um fantasma teológico poderosíssimo no Ocidente ao dizer que Cristo morreu para redimir nossos pecados.

São eles [os simulacros dos objetos] como películas arrancadas da superfície dos objetos e que voejam de um lado e outro pelos ares; indo ao nosso encontro quando estamos acordados, aterram-nos o espírito, exatamente como em sonhos, quando muitas vezes contemplamos figuras espantosas e imagens daqueles que já não têm luz; são elas que muitas vezes nos arrancam cheios de horror ao sono em que repousávamos (…)*

Eis aquilo que mais nos separa do prazer: o medo como subproduto dos fantasmas. Nossa consciência, à medida que se percebe como causa de si e das próprias ações, sem se dar conta de que ela mesma já é efeito, não é uma consciência tomada por fantasmas? A psicanálise quando obriga a produção inconsciente a passar pela castração simbólica é uma máquina de produzir fantasmas. A ignorância e as superstições dos homens a respeito da natureza, do corpo, da alma, da mente e daquilo que lhes afetam, tudo fantasmas. Os ideais que perseguimos são composições fantasmagóricas. A paranoica social política em que vivemos é produto de cadeias de signos que vão se atualizando nos fantasmas. Estamos povoados de fantasmas que se retroalimentam e se atualizam o tempo todo – não nos equivoquemos quanto aos múltiplos sentidos da palavra, o fantasma aqui tomado como conceito é real, produz realidades autônomas das quais nos relacionamos.

Ó pobres espíritos humanos, ó cegos corações! Através de que trevas e perigos se passa o pouco tempo de vida! Não sente cada um o que a natureza a gritos proclama, que esteja sem dor o corpo e goze a mente, fora de medo e de cuidado, de um agradável sentimento?*

A punição da alma. Christian Edler

A punição da alma. Christian Edler

O capitalismo entendeu muito bem como operar por imagens fixadas em ilusões e não para de produzir uma realidade toda sustentada por fantasmas, encontrando no dinheiro o fantasma maior. O que é o dinheiro em si? Nada! O dinheiro não é nada até ele ser sustentando e investido por um conjunto de crenças e valores dos quais nos relacionamos para produzir uma realidade repleta de perturbações. Por dinheiro se mata, se morre, por dinheiro arruinamos nossos desejos e afetos mais autênticos, relacionamo-nos por dinheiro, pensamos por dinheiro,… Tantos anos depois de Lucrécio, o capitalismo em sua versão neoliberal sofistica-se cada vez mais a partir do terror sobre as almas. O tempo, os afetos, os regimes de sensibilidade, a linguagem, o amor, o pensamento, o desejo… capturados pelo poder não passam de fantasmas, ilusões ou superstições – nossa alma, sitiada por inquietações, está cada vez mais esgotada e encolhida.

Por fim, vêm a avareza e a cega cobiça das honras que obrigam os pobres homens a ultrapassar os limites do direito e até, cúmplices e servidores do crime, a esforçar-se de dia e de noite, com trabalho sem par, por atingir os cimos da riqueza: estas chagas da vida são criadas, em parte não pequena, pelo medo da morte.*

Qual a nossa fonte? Spinoza nos ajuda de maneira mais fácil: a natureza enquanto potência que se expressa em nós. Qual a fonte do planeta: o dinheiro, o lucro, a economia… um grande Nada mantido e investido diariamente através do nosso desejo, promovendo ideais dos quais nunca alcançamos. Qual a fonte que estamos nos relacionando? A tristeza e o ódio não nos deixam enganar. É verdade que as máquinas do poder são sutis e sofisticadas, mas nós não podemos perder de vista os nossos próprios investimentos.

Neoliberalismo: a alma em estado de permanente perturbação

Neoliberalismo ou o homem mantido em estado de permanente inquietação, permanente perturbação, permanente desconfiança, permanente… ódio e tristeza: impotência. A alma neoliberal é composta por átomos de ansiedade, depressão, paranoia, procrastinação, matizes diversas de mal-estar. Eis o homem neoliberal: estados de impotência suprimidos por alguns breves lampejos de prazer para manter a esperança que alimenta a perseguição pelos ideais.

Por que resistimos tão poucos apesar de o poder massacrar a vida diariamente? Políticos já não escondem o próprio sadismo, pessoas pedindo por mais repressão, a mídia preenche nosso tempo com jornais, telenovelas e programas de auditórios como se fôssemos imbecilizados, e o que dizer do grande capital e seus publicitários que não param de produzir imagens de uma vida completamente irreal e, entretanto, nós as compramos? E tudo isso sem uma arma apontada na nossa cara, tudo isso sem um chicote estalando em nossos lombos, tudo isso passando nos dias e nas noites através de uma alma esgotada: se Lucrécio considerava as perturbações da alma como o nosso maior inimigo é porque ele sabia o quão difícil é agir quando atolados em mal-estar profundo, reagir parece que já nos tem sido muito. O capitalismo é um estado de crise permanente refletido em nossos modos de viver. Só mesmo um inimigo extremamente sutil que habite permanentemente em nós para nos levar a estados de mal-estar tão profundos: livrar-se dos nossos fantasmas não é uma tarefa fácil!

Lucrécio diria que tudo isso se mantém por falsos infinitos: o infinito dos prazeres que levará o infinito de desejar os objetos dos prazereso e o infinito da alma desejar imortalidade. Ora, se tenho a ilusão de que os prazeres são infinitos, bem como os objetos de sua satisfação, necessariamente meu desejo vai se frustrar e a vida vai ser caracterizada pelo negativo da falta, logo o nosso castigo também é infinito. Já dissemos por aqui (1)(2) o quanto o capitalismo entendeu muito bem como operar a culpa e dívida. As evidências do nosso tempo se fazem presentes: o capitalismo é um falso infinito por excelência, ele não para de produzir prazeres e a ordem de todos os dias é clara, consuma, viva o instante, goze, agora! Mas elevamos a esperança à categoria da coragem, e a gente espera, uns esperança casa própria com o carro zero, outros o casamento com a casa e o carro, outros irão perseguir o empreendedorismo, … nunca conseguimos segurar os fantasmas do sucesso e dos ideais, e a culpa só aumenta!

Não estamos fazendo uma crítica ao materialismo, aos bens, ao conforto. Ora, o materialismo do capitalismo é um falso materialismo. O cheiro do carro zero sendo dissipado é também a felicidade sendo esvanecida, a alma tão logo estará ardendo em inquietações e precisará de um novo objeto para sustentar-se. O que queremos dizer é muito simples: o capitalismo é um sofisticado plano de organização da vida que se quer passar como sendo a própria natureza das coisas. Mas ele é totalmente sustentado por superstições gerenciadas pelo poder.

Lucrécio já denunciava os homens que sustentavam o poder a partir de fantasmas. Esses homens são todos aqueles que dependem da tristeza dos outros para existir: o estado, o capital, o sacerdote. Essa é a trindade maior, temos derivações: o publicitário, o guru, o padre, o psicanalista, o agiota… Não estamos condenando esses tipos, estamos dizendo que todos eles operam com o falso infinito da falta, qualquer um de nós pode ocupar essa posição de vida.

A ética de Lucrécio para a vida

(…) parece que a seguir devo pôr claro nestes meus versos a natureza do espírito e da alma, expulsando, derrubando aquele medo do Aqueronte que perturba desde os fundamentos, intimamente, a vida humana, tudo penetra da cor da morte e não deixa prazer algum límpido e puro.*

Conhecer a nossa própria natureza para combater as perturbações da alma que nos afastam da alegria de viver: essa é a filosofia prática de Lucrécio. Parece simples, mas combater um inimigo que habita em nós de modo tão sutil é tarefa das mais difíceis. Se fosse fácil, disse Spinoza, os homens não viveriam tanto na ignorância. O conhecimento que comumente nos relacionamos é muito mais uma perturbação da alma à medida que nos coloca a serviço da moral de nossa época. Viver conforme a nossa natureza requer exercer a potência do pensamento para melhor se relacionar com as forças que se expressam através de nós. Não estamos sozinhos nessa empreitada, e Lucrécio nos deu várias pistas. De que vale um pensamento que não serve para aumentar nossa alegria de viver? – ecoa as vozes desses antigos em Nietzsche.

Exatamente como trêmulos meninos que tudo receiam nas obscuras trevas, assim nós tememos à luz do dia o que em nada é mais de recear do que as fantasias que atemorizam os meninos no escuro. E a este terror do espírito e a estas trevas não afastam nem os raios do Sol, nem os luminosos dardos do dia: só o fazem o estudo da natureza e suas leis.*

Um conhecimento que sirva para afastar as perturbações da alma é uma ética de viver que precisa ser exercitada. Comecemos pelo nosso tempo, o tecido de nossas vidas, quem organiza nosso tempo? Só o uso que fazemos dos nossos celulares já nos envergonha. Pensemos os nossos afetos. Parece que somos facilmente propensos a odiar, julgar e culpar o primeiro que segue um movimento diferente do nosso. Pensemos o nosso consumo. Parece que sequer nos damos conta de que diariamente estamos comprando produtos daqueles que financiam a morte. A política? Vamos combinar uma coisa: se vamos pensar o que os políticos têm feito de nós, temos que necessariamente pensar o que temos feito de nós mesmos! A mídia nos aliena? Sabemos disso, e no entanto, mas parece que continuamos dando audiência.

No limite, o que estamos perseguindo? Em boa parte, perseguimos crenças e valores dominantes para sermos reconhecidos, são fantasmas que nos prometem afastar o terror da alma. Sabemos que o carro não irá nos permitir andar por cidades limpas e sem trânsito cujos olhares se voltam todos para nós, sabemos que a nova pasta de dente não irá nos trazer um amor de novela, contudo, nos relacionamos com tudo isso como se fossem realidades autônomas: como nunca “encarnamos” os fantasmas, tão logo nos inquietamos por outra ilusão.

Onde está o inimigo maior que não o vemos? Os bodes expiatórios mudam constantemente e o ódio não diminuiu. O capitalismo tocar o terror em nossas almas de modo tão sutil… que muitas vezes nem nos damos conta do quanto o investimento do nosso desejo não está contribuindo para o nosso próprio esgotamento.

Retornar àqueles antigos que tanto experimentaram modos de viver e combateram o negativo, é necessário. Apesar de distantes, é preciso compreender como as sofisticações do negativo foram se sucedendo no tempo para que possamos desenvolver práticas de combate que nos possibilitem descobrir modos de vida mais potentes e menos assujeitados.

Depois que nos livramos do fantasma, tudo segue com infalível certeza, mesmo no meio do caos. Desde o começo nunca houve senão caos: era um fluido que me envolvia, que eu aspirava através das guelras. No substrato, onde a lua brilhava firme e opaca, tudo era fluente e fecundante; acima dele, era confusão e discórdia. Em tudo eu via logo o oposto, a contradição, e entre o real e o irreal via a ironia, o paradoxo. Eu era meu pior inimigo. Do que eu desejasse fazer nada havia que eu não pudesse também deixar de fazer. Mesmo em criança, quando nada me faltava, eu queria morrer: queria entregar-me porque não via sentido em lutar. Sentia que nada seria provado, justificado, somado ou subtraído se eu continuasse uma existência que não havia pedido. Todos ao meu redor eram fracassados e, se não fracassados, ridículos. Especialmente os que haviam “vencido”. Estes me faziam chorar de enfado. Eu era indulgente com as faltas, mas não era simpatia que me impulsionava. Era uma qualidade puramente negativa, uma fraqueza que florescia à simples vista da miséria humana. Nunca ajudei alguém esperando que disso resultasse algum bem. Ajudava porque era incapaz de agir de outra maneira. Querer mudar o estado de coisas parecia-me fútil. Estava convencido de que nada seria mudado, a não ser por uma mudança de coração, e quem poderia mudar o coração dos homens? HENRY MILLER. Trópico de Capricórnio


* LUCRÉCIO, Da Natureza. Trechos retirados da coleção “Os Pensadores”. Editora Abril Cultural, 1985.

1. Em Lucrécio a alma é o sensível (sensações que recebemos da matéria a partir dos sentidos) mais o pensamento. Também é um composto de átomos, o que irá diferenciá-la do corpo será uma questão de qualidades/tipos de átomos.

2. Vazio em Lucrécio não se reduz ao negativo, é um espaço criador por onde tudo se sucede. Junto com os átomos e a composição formam os três infinitos verdadeiros. Todos os corpos e tudo que existe vêm das leis desses três infinitos.

3. Os corpos emitem fantasmas (simulacros) que são emissões que vagueiam distante da fonte (corpo): cheiro, sons, imagens, etc. Esses fantasmas vagam pelo infinito e se misturam uns aos outros formando compostos. A teoria dos fantasmas é complexa, por si só eles não nos levam ao falso, é a maneira que nos relacionamos com essas emissões e a tomamos como realidades autônomas sem perceber suas origens que vamos caindo no falso. Para efeito desse texto consideremos os fantasmas relacionados àquilo que é superstição, ignorância ou ilusão. A causa inadequada das coisas, forçando aqui com Spinoza. O mito, por exemplo, é produto de fantasmas enquanto misturas de narrativas de povos e culturas para explicar origens e causas. O medo da mortalidade leva os homens a produzirem o fantasma da imortalidade da alma, aterrorizando-os uns aos outros. Os ideais são outro exemplo de fantasma dos quais perseguimos e nos entristecemos. À medida que nos relacionamos com os fantasmas e o tomados como verdades, mais nos separamos da nossa natureza e mais perturbamos a nossa alma. Essas questões Lucrécio desenvolve no Livro IV da sua obra. Aqui também foi utilizado aula Lucrécio e a Ontologia da Ilusão de Cláudio Ulpiano.

Arte de capa: Pat Perry

Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.