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Talvez você devesse escutar o que a depressão tem para te dizer

Sociedade e sofrimento mental
Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra

Essa foto eu tirei de nós, da nossa sociedade para mostrar como ela lida com sofrimento mental. Ela foi se revelando ao longo de uma vida observando, estudando, doendo e vendo os outros doerem, às vezes ajudando-os a doer menos. Ficou pronta recentemente, enquanto estive na pior crise depressiva de toda a minha vida.


escrevo para mim mesmo

Devo esses escritos à criança que fui e a todos os meus Eus que também não puderam doer, ter voz e nem se defender enquanto eram acuados de algum modo a participar da festa social por não conseguirem estar com rosto feliz. A definição que nos deram nunca nos coube. Hoje eu posso nos defender, mas não sou de ferro, meu coração sangra todos os dias.

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Quando você vem ao mundo com alguma coisa fora do padrão, vão colando tudo quanto é rótulo em você. Rótulos levam pessoas a acreditar que há algo de errado com elas. Você sabia que nem sempre é a pessoa que você acha mais ignorante que rotula?

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Ando desafinando o coro dos contentes e deixando meu pior vazar por aí. Quando você consegue sustentar seu pior, você enxerga situações do passado misturadas com tristeza e revolta. Se eu pudesse voltar atrás daria um soco em muita gente, mas só posso tentar acertá-los com palavras.

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Cheguei ao final de 2018 com a bagagem repleta de perdas e perdi a palavra, não aquela que a gente usa para informar documento. Tudo em mim foi ficando incomunicável, anoitecendo e multiplicando perplexidades que não conseguiam ser gritadas, daí em diante fui ficando cada vez mais encurralado dentro da minha própria cabeça. Não sabia, mas essa ainda era a primeira porta do inferno.

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Esses escritos são fragmentos. Pedaços de alguns cacos que ainda estou recolhendo e tentando colar de volta. Escrevi para recuperar a palavra e a mim mesmo, o que for possível. Eles também estão bagunçados, do jeito que as coisas estão na minha cabeça. É melhor estar bagunçado do que estar morto com o coração batendo.

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Você já teve um vaso quebrado com planta dentro? Não precisa ficar com medo, gente quebrada é igual vaso, também pode germinar flores.

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Eu nasci com uma falha: as vezes viver dá náuseas e existir passa a ser difícil demais. Esse é o primeiro pedaço, os outros ainda não sei a sequência.

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Isso não chama depressão, mas como depressão é nome para tudo, vamos usar esse nome. Você sabia que hoje em dia a depressão é até considerada o novo normal? É tipo assim, tá todo mundo depressivo, só você está chorando por isso… – me disseram. Às vezes ela não é a depressão que você chama de deprê.

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Esses fragmentos nascem da revolta: a revolta de ser só eu mesmo que está chorando por isso. É verdade, não tenho conseguido seguir em frente com a minha “deprê” igual todo mundo, talvez por ser imperfeito e fraco demais, ou privilegiado para alguns… Já que todo mundo parece ter medo de pessoa deprimida, convido você a escutar as coisas horrorosas que uma pessoa assim pode ter dentro de si. Cuidado, pode estragar a sua vibe positiva.

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Dor é modo de dizer para algo que não sei dizer. Às vezes é só uma coceira na alma, às vezes… parece que a vida chega ao fim antes da morte.

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Para alguém: estou recolhendo os cacos, hoje, eu me enxergo.

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Eu chamo minha depressão de Coisa. Porque desde pequeno eu a vejo como algo inominável. Ela é mais esquisita que milhares de borboletas voando no seu peito naquele instante em que você vai dizer “Eu penso em você todos os dias” – e dói igual ou muito mais quando todas as suas borboletas têm as asas rasgadas lentamente. Você já ficou pensando em uma pessoa todos os dias para ver o inferno que é? Ela gruda na sua cabeça que você nem dorme mais. Você olha no breu da sua solidão e a criatura está lá, sorrindo para você igual o Gato Listrado da Alice no País das Maravilhas.

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Para alguém: sai da minha cabeça criatura, mas me leva com você.

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Você com certeza tem várias definições de depressão, há uma cartilha com traços morais negativos que nunca sai de moda e sempre circula entre família, amigos e até gente considerada inteligente. Eu sei ela décor, mas essas definições nunca me couberam, vou contar a que me cabe.

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O que uma mulher escuta quando está deprimida? E se ela for pobre, rica, dentro ou fora dos padrões de beleza? O que ela escuta se a depressão é pós-parto, se for mãe ou mãe solteira? E o idoso, o adolescente e a criança? Eu sou homem, branco, forte, tenho teto, barriga cheia e boa capacidade intelectual, se eu descrever os meus cacos hoje sem ter sangue no meio, a voz que sai através da minha “aparência social” tem soado como voz de quem chora com a barriga cheia. Dor precisa ter cara de UTI: aprendi isso recentemente enquanto acenava por algum tipo de ajuda assistindo minha cabeça virar do avesso. Preciso ter cuidados, às vezes a recepção pode machucar ainda mais.

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Em um mundo onde há cada vez mais desigualdades e que ainda mata crianças de fome, sofrimento mental talvez seja um luxo que alguns querem ter.

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Há muitas coisas na sociedade que são mais pornográficas que a pornografia. Depressão é uma delas. Falo da que me coube. Apesar de mim, contra as nossas vontades e os nossos desejos, toda vida é atravessada por fluxos e forças de toda ordem e intensidade: também não é sobre mim.

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Quando a gente demora muito para conhecer o nosso primeiro elogio, não sabemos onde enfiar a cara quando ele acontece em uma sala de aula. Dica para os pais: nem a Barbie e nem o Ken deixa criança mais feliz que elogio sincero, e você não faz ideia do quanto isso facilita ser adulto. O mesmo acontece com abraço: abracem suas crianças para que elas saibam que o melhor lugar do mundo para estar não é na Disney, é dentro de um abraço.

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Para alguém: nos teus dias mais difíceis, tente se lembrar que beleza e dor andam juntas. Bailarina dói e faz doer, de tão bonita que é. Não me julgue sem antes compreender porque sentir tua falta dói tanto, é só isso que te peço.

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A todas as sensibilidades atípicas que doem de dor invisível: às vezes a doença é o normal, como gente normal é maioria, então nós teremos que encaix… esqueçam, continuem desencaixados.

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Dor invisível também é conhecida como dor emocional e não é coisa da sua cabeça não, é do corpo. Quando o dia dói só por amanhecer, até respirar fica muito difícil.

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Talvez os escritos que preciso percorrer para te levar à depressão que me cabe sejam longos. Dá um baita trabalho retirar todos os rótulos que já recebi e escrever outros no lugar. Não sei se teu limite é o mesmo das timelines, espero que não. Mas o passeio será bom, ao longo do caminho irei te oferecer algumas artes de viver que aprendi ao longo dessa vida. Isso se você não se esquivar de pessoa deprimida como muita gente que encontrei por aí.

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Para Maya e Lara: não fui eu quem resgatou vocês, vocês que me resgataram.

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Spoiler, vou resumir a parte mais chata: depressão não cabe em nenhum quadro de psicopatologia porque é múltipla demais e pode se apresentar com vários espectros como compulsões e obsessões, despersonalização, paranoias, episódios psicóticos, crises de pânico e ansiedade, etc. Ela vaza pela psicologia, psiquiatria, filosofia, literatura e política. Melancolia e tristeza, que são bem diferentes,  também foram jogadas no mesmo saco das depressões. Depressão é uma espécie de signo para vários tipos de adoecimento, inclusive serve para mascarar conflitos. Também é categoria social e política. O DSM só serve para preencher atestados, prontuários e demais papéis de seguradoras e convênios. Assim, a gente tem usado o nome a torto e a direito para qualquer mal-estar. E se a gente usa pra tudo, então equivale a nada, daí muitas pessoas acham que depressão é só tristeza. Quem me dera fosse e eu faria versos com ela.

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Tem gente que acha que depressão é tipo uma gripe que você pega e depois passa. Pode ser, mas pode ser tantas outras coisas. Pode ser a cicatriz com a qual veio ao mundo e aí vai ter que encontrar jeitos de driblá-la para o resto da vida se não ela te devora.

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Quando pessoas doem, compreender importa mais que saber o nome. Então guarda isso: há tantas depressões quanto há pessoas deprimidas. Irei repetir isso mais vezes para você não esquecer.

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Eu não sou intelectual, vim da rua com uma etiqueta na testa escrito “você não vai dar certo”. Apenas entro nas áreas que quero, reviro, pego o que me interessa e faço minhas próprias ferramentas de compreender mundo e gente. Nunca encontrei ferramenta para consertar coração, venho de remendos e gambiarras desde criança.

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Muitas vezes há mais calor humano na rua do que nos locais onde gente inteligente escreve o funcionamento do mundo. Muitas vezes já me senti mais seguro na rua do que dentro de casa.

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Muitas pessoas vêem criança com fome, mãe pedindo esmola, animal abandonado, … e suas vidas parecem seguir normalmente.  Eu não, eu fico para trás sentindo a vida revirar dentro de mim enquanto o mundo segue seu ritmo. Ainda tem alguns pedacinhos quebrados aqui dentro de coisas que vi há muito tempo atrás quando criança. Enquanto colo meus cacos outros pedaços de mim vão caindo. É assim a vida toda, chegar ao fim todo remendado?

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À sociedade: qual é o prazo permitido para uma pessoa poder sofrer de dor emocional sem punições morais e financeiras? É bom aprender a doer sem pedir licença o quanto antes, senão a dor vai ser ainda maior – e sim, você vai perder gente pelo caminho. Se uma pessoa querida morre você tem autorização para doer, mas até certo tempo. Tem tipo de dor que você vai ter que bancar para poder doer, porque é como se fosse uma escolha sua – “olha que legal, vou pegar essa depressão pra mim porque quero estar na merda”. Dor emocional costuma ser assim…

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Para alguém: posso sentir quando você está triste, teu silêncio fica bonito, teus movimentos passam a ser um adágio de ballet e um dia com uma neblina calma e leitosa desses que a gente não quer sair dos cobertores amanhece nos teus olhos. Mas também sinto ânsias no meu coração, minha cabeça fica bagunçada e um desespero de querer fazer algo para sumir com tua dor desregula meu tempo que nem durmo mais. Sei muito bem que é um erro grave achar que podemos tirar a dor da pessoa, mas quando é você que dói eu sinto mais do que penso. Quando estiver doendo, gostaria apenas de estar ao teu lado, e mesmo que tudo dê errado quero continuar ao teu lado.

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Quanto mais náuseas o mundo vai causando, a Coisa que antes estava ali do tamanho de um grilo pulando dentro de mim fazendo cócegas vai aumentando. De algum tempo para cá tenho amanhecido grilo pulando dentro da Coisa e até o meu “Oi” sai baixinho.

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Tenho que te dizer algo triste: estética é critério para abrir ou fechar portas, inclusive se vai ser tratado como gente. Mulher sabe disso desde criancinha. Talvez você não saiba, mas vestir um padrão afetivo e emocional também decide como você será tratado.

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Aprendi a ser escutador e observador graças aos momentos que a Coisa me deixa deslocado de tudo. Escuto e observo vento, passarinho, flor, folha seca passeando, cheiros, gente, olhos, árvores, estrelas… Às vezes a pessoa vem me contar o sofrimento dela e vejo uma ferida ali toda aberta, só que não posso contar sem entender o ritmo do coração dela. Não é simples se tornar escutador e observador, se não eu te contava porque eu vejo que estão todos surdos de escutar tudo e cegos de ver tudo. Vou te contar um segredo: a linguagem das estrelas é mais fácil de entender do que a linguagem do feminino e eu não sei onde está a minha ferida.

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Para alguém: me desculpa.

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Quase ninguém tem tempo hoje em dia, andam todos ocupados de procrastinar. Tempo para gente com dor invisível então… Você ainda está me lendo?

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Tem gente que acha que dá para parar pensamento. E se eu te disser para não pensar em uma maçã? Se você diz que não está pensando na maçã você está mentindo, olha uma maçã aparecendo aí na tua cabeça como fantasma de Platão. Para parar pensamento é outro processo, dá um trabalho do cão, isso quando dá! Eu demoro para esquecer gente que gosto muito e vai embora, fico cheio de detalhes da pessoa circulando na minha cabeça. Em qualquer lugar que vou a pessoa está em todo canto o tempo todo, menos comigo. Se durmo para esquecer, a encrenca me vem sorrir em sonho – às vezes é pesadelo… e até em pesadelo continua linda. Você ri, mas faz chorar.

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Quando você recebe muitos rótulos você acaba acreditando que é o rótulo. Há muitos e muitos anos na escola uma mocinha gostava de mim, eu não entendi como alguém poderia gostar de alguém como eu. Continuo não entendendo.

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Há três coisas na vida que se bem alinhadas conseguem nos fazer tocar o mundo um do outro mais que todas as palavras já escritas: o toque, o olhar e o silêncio. Alinhá-las é uma arte difícil, muitos morrem desalinhados mesmo depois de viver décadas e décadas juntos. Contudo, eu só tenho a palavra para falar de algo inominável e sem matéria. Hoje, alguma definição eu deixo dela.

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Lembre-se: a maioria dos nossos dias e o de todo mundo tem gosto de borracha. Isso quando é um bom período. O da pessoa que você ama também. Tem gosto de alegria, quando estão juntados.

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Talvez o buraco seja muito mais fundo do que trocar as bestas de quatro em quatro anos: há um fracasso retumbante na escuta, e consequentemente na presença. Pais, filhos, casais, amigos de longa data… todos se falam sem se escutarem, todos se olham sem se enxergarem. Olhe ao redor e veja o que acontece com sociedades quando não há escuta nem presença. Vão desmoronando, se matando, se odiando…. Escutar implica passar por vazios, silêncios, constrangimentos, incômodos e ter o corpo atravessado com afetos de todos os tipos, pode dar certo ou dar errado. Escutar é correr riscos. Quando foi que ficamos tão cagões? Nunca tivemos tantos meios de se falar para não nos comunicar. Tem gente dizendo que o digital é apenas um meio diferente, isso é balela, há sutilezas que jamais passarão por virtualidades, a compreensão entre humanos começa pela pele. Nascimento, morte, despedidas, términos, divórcios, encontros… hoje, para tudo, temos mensagem com carinha feliz ou triste:  às vezes o que impede uma pessoa de fazer uma bobagem é só silêncio e presença. Silêncio e presença, apenas isso!

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Há milhares de casais que estão juntos mas sozinhos, e se relacionam quando brigam. Tem gente que acha isso até normal, mas não é não. Se for brigar, pelo amor de deus, não brigue na frente da criança, o que ela pode pensar sobre isso é muito mais do que você imagina. Quando crescida ela vai continuar sentindo as marcas no corpo sem nem se dar conta de onde vem isso, e não dá para apagar, às vezes só tentar lidar mesmo.

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Quando a Coisa e eu estamos amigáveis um respeita o outro, às vezes travamos batalhas perigosas. Por enquanto eu venci todas, não sem perder muitos de mim pelo caminho, mas também conheci outros de mim. Nunca soube o total de mim mesmo. A Coisa é astuta e retorna diferente, eu também sou, ela diz que precisa ganhar apenas uma vez. É verdade.

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Nem toda droga é tarja preta, cheirada ou fumada. Tem pessoa que se droga trocando de carro todo ano, tirando selfie fingindo, dizendo que quer ser chamado de doutor, sendo machão na família, etc. O que cura nem sempre é ciência, às vezes é um abraço. Dica: sintoma pode ser seu corpo dizendo que ele não está cabendo no Euzinho, tente sustentar a dor, será que algo não está pedindo passagem? Mas cuidado, não vai achando que toda dor veio para ensinar algo e precisa aguentar o sofrimento, isso é estupidez.

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É estranho dizer que existir às vezes me embrulha o estômago e tudo fica muito difícil e esquisito, até cumprimentar gente. Mas você já levou um soco no estômago? Então, só que no caso é sua vida que leva o soco. Às vezes eu nem sei de onde veio a porrada, às vezes é de alguma cena de crueldade que acabei vendo, muitas vezes é das dores do nosso mundo cada vez mais frio e indiferente, às vezes é de pessoa bonita que vai embora mesmo. Você sabe dizer como algo tão bonito pode fazer doer tanto?

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Para alguém: quando a Coisa tira minha palavra a minha fala sai desordenada do jeito que ficam meus pensamentos, não é comum eu falar coisa ruim… na minha noite tem estrelas e passam versos como esses voando igual morcego, “Teus olhos são um atentado celeste, e quando estavam tristes aquele teu meio-sorriso te caia muito bem, parecia uma deusa mística tornando meu dia um pedaço do céu”… Fica tranquila que na vida real eu só perguntaria se você poderia ficar um pouco mais. – Sabe qual o sentido da arte? O mesmo da vida: nenhum.

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Enquanto você lia os dois trechos acima uma pessoa se suicidou, sabia?

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A Coisa tem um potencial enorme para fazer da vida um inferno na terra. Às vezes pode ser algo como sentir-se absolutamente sozinho habitando uma espécie de planeta estranho sem conseguir conexão de volta com os humanos. Pode ser ficar perambulando por aí se sentindo fora do corpo vendo a merda acontecer. Pode ser não conseguir levantar da cama sem ter nada quebrado. Pode ser ficar com muito medo de enlouquecer enquanto tenta se defender de algo que está te levando a pensar, sentir e fazer coisas que você sabe não estar funcionando nada bem. A etapa final é se ver totalmente sem saída e tudo em você passa a olhar o mundo em tom de despedida sem se dar conta.

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Você ainda vai me agradecer por isso: não sabe o que dizer? Apenas fica do lado e suporta o silêncio. O silêncio pode ser bonito.

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Às vezes pessoa deprimida não consegue responder uma mensagem, atender uma ligação ou sequer decidir que dia e hora marcar alguma coisa. Ela precisa esperar juntar migalhas de energia. Eu sei que é absurdo você acreditar nisso e dá trabalho explicar. Mas te ofereço outro caminho: viver não é da ordem do entendimento, viver é da ordem do absurdo e o absurdo é só o começo. Me explica: por que a gente insiste se sabe que vai machucar?

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Normalidade é um transtorno como qualquer outro, no entanto, é o mais contagioso e o mais tóxico porque exclui diferenças, e sendo maioria o clube decidiu-se por saudável em oposição à diversidade funcional, biológica, cognitiva, sensitiva e afetiva-emocional dos seres humanos. Sabia que nem toda loucura é doença?

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Todo mundo tem vazio e é horrível cair dentro do nosso vazio. Gente tá sempre comprando coisas para tentar não cair em vazio, depois que abre a embalagem, mexe nos botões… vazio novamente! Todos os planetas e astros vivem no vazio mas eles não caem, eles dançam e flutuam. Dizem que os planetas e os astros não caem por conta da força da gravidade, é bom saber, isso pode ser útil, mas a explicação que a gente inventa para organizar o mundo te convence? A mim é neurose: uma “doença genética” da consciência que quer arrumar finalidade para as coisas e arrancar do mundo todo o caráter estranho, inquietante e misterioso da vida. Prefiro a arte: ela sabe que suas verdades são ficções que precisamos para viver.

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Para alguém: quando você me olha, de repente eu to dançando e flutuando no meu vazio. Não sei como faz isso, apenas acontece. Se eu disser que é por conta da força dos teus olhos, isso convence? Convencer eu não quero, mas queria que você pudesse sentir um pouco do que eu sinto quando te vejo.

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À menininha que um dia me abordou durante uma caminhada e perguntou se eu estava chorando: eu menti, o meu corpo feito para ser homem ainda só consegue chorar debaixo do chuveiro.

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Depressão não é contagiosa e não estraga a tua felicidade, a não ser que ela seja fake. Cada pessoa com depressão é uma. Há pessoa deprimida muito mais agradável que gente feliz. Não esquece: há tantas depressões quanto há pessoas deprimidas.

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Você sabia que tem muita gente feliz por desespero? Desespero do que vão encontrar se olharem dentro de si mesmas.  Ahhh se eu pudesse conversar com cada uma delas numa salinha, sairiam com as feridas expostas.

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Todo mundo tem uma ferida enorme que para o outro é só um raladinho de joelho e vice-versa. Se todo mundo ajudasse todo mundo, talvez o mundo fosse menos machucado. Não se deixe enganar: até macho tem ferida. Quanto mais machão, mais gangrenada está. Macho também é nome de um tumor da humanidade.

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Para alguém: no meio do caminho encontrei vontade de viver que se juntou à vontade de morrer, o resto foi minha cabeça desmoronando.

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Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição…

Com esses versos do Legião Urbana você escuta os soluços do mundo. Estamos muito aglomerados, e sozinhos.

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Quando a Coisa está presente sou uma pessoa, quando ela está ausente sou outra pessoa. Se eu pudesse, escolheria ser só a pessoa sem a Coisa, mas muitas vezes preciso viver nos intervalos coletando vida em pequenos detalhes que encontro por aí. Agora estou em intervalo.

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Na verdade, não digo mais o que disse. Se eu fosse só a pessoa sem a Coisa então eu não seria mais Eu e não sei o que seria. Às vezes me odeio, mas também me amo e pretendo continuar sendo eu mesmo. Você já quis não ser você mesmo? Todo mundo já quis ser outro.

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Pra gente ser outro a gente precisa amar. Aí a pessoa que você ama se mistura com você e você se mistura com ela e pronto, ninguém é mais o mesmo. Por isso que quando acaba dói tanto, é porque a gente vai ficar sem um monte de pedaço que era do outro e precisa colocar outros pedaços no lugar. Como a gente nunca encontra um pedaço exatamente igual, a gente volta outro. Como ser humano tá sempre se quebrando, então a gente sempre tá sendo outro. Pronto, podemos ser outro sendo nós mesmos.

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Que triste pessoa que chama outra pessoa de ignorante porque não lê o que ela leu. Sabe como se comunica com pessoas? Descendo do seu degrau e ajudando o outro a subir um degrau.

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Para alguém: por fora eu posso ser forte, mas por dentro tenho fraquezas, tenho medos, choro e sinto friozinhos na barriga toda vez que você passeia entre minhas insônias. Achei que pudesse cuidar de você e colocar flores no lugar das suas feridas. Eu sei, parece delírio e desespero da minha parte, mas foi fraqueza assistindo você chorar. Eu devia ter aprendido com meus vasinhos que nunca consegui fazê-los florescer que eu iria sufocar tentando entrar nos jardins secretos do seu coração sem a leveza e delicadeza de um beija-flor. Lamento, estava eu mesmo muito pesado de dor.

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Eu nunca vi uma pessoa deprimida ser igual a outra, já vi pessoa com depressão que trabalha fazendo os outros rirem, como palhaço e humorista. Há os que trabalham ajudando gente (inclusive gente com depressão), médico(a), enfermeiro(a), psicólogo(a). Enquanto ela não paralisa, eles estão lá, um dia de cada vez. Já atendi paciente que se pudesse ver a minha bagunça sairia correndo e nunca mais voltaria.

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Para alguém: não creio em deuses, mas em pensamento faço uma oração desde que te conheci: onde quer que ela esteja, espero que ela esteja bem – um sorriso tímido finaliza, Amém. Acredito em milagres: já vi milagres nascerem no meu dia apenas observando um jeito seu de ser.

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Muitas vezes precisei brigar contra um rótulo e daí apareciam dezenas de outros. Já faz muito tempo que apenas sigo em frente, mas preciso me segurar porque avançar é quase instintivo.

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Reflita: criança pode doer muito com bicho papão e adulto não, já adulto pode doer muito quando perde emprego, criança não. Não existe dor que não dói para quem dói. Se a dor não for sua, não chama de drama e não, você não sabe o que a pessoa está sentindo e nem sabe o que é porque você já teve a dor dela: ser humano se repete sempre diferente.

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Tem dor que só pessoa pode ajudar outra pessoa a doer menos, conta bancária não. Você sabia que uma pessoa triste pode alegrar outra pessoa e uma pessoa alegre pode entristecer outra pessoa? É assim mesmo.

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Está confuso? Falar da Coisa é confuso mesmo, ela é invisível. Apenas confia em mim. Você sabia que a felicidade foi inventada na modernidade? Mas olha… seriam horas e horas para te falar dessa arapuca que criaram e eu preciso contar a definição que me cabe antes que você me abandone também.

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Para você: não tenha receio de pessoa deprimida, a positividade é tóxica.

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Você fala para uma pessoa que está perdendo os cabelos por conta da quimioterapia colocar uma peruca? Não peça pra pessoa colocar uma “cara”, você não sabe o que se passa.

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Quem é você sem as fotos e os likes do Instagram? Quem é você sem o celular? Quem é você sem os “amigos” do Facebook? Esse frio na espinha que você sentiu… é Ela! A depressão está aí rondando cada um de nós. Tem gente que se torna obsessiva em postar foto feliz só para não sentir coisas desconhecidas estiletando a alma.

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Para me lembrar: você veio ao mundo como uma criança se sentindo estrangeira e está na contramão desde então, nunca recuou e não será agora que vai recuar.

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Aprendi a ajudar pessoas a falarem das próprias dores para que possam doer menos, não aprendi a falar das minhas, mas não por opção. Criança quando dói de dor invisível pode acabar apanhando e doer mais. Adulto não apanha, mas pode escutar cada coisa – até de amigos! – que seria melhor só apanhar como criança.

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Para alguém: estou aprendendo, eu sei que você também está.

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Às vezes uma pessoa é gentil com você, só que na hora você estava tão desgastado se defendendo das merdas que aconteciam na sua cabeça que acabou espirrando irritabilidade nela. Isso retorna em forma de culpa na hora do banho.

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Um dia eu estava metido em batalhas bem perigosas, de vida ou morte mesmo, aí acabei machucando a pessoa mais especial que já conheci. Só que na minha cabeça eu imaginei que estava fazendo algo bom. A dor foi tanta que eu queria poder arrancar o coração e mostrar pra ela o que se passava dentro de mim, igual quando assistimos filme como alguém de fora que vê tudo o que acontece e aí a gente vê que o erro foi inevitável e deixa de ser erro, sabe? Mas de filme a vida não tem nada… se mesmo tentando fazer o meu melhor com o pouco de energia que tinha acabei piorando, então minha cabeça criou uma realidade onde eu não via mais saída e a Coisa começou me mastigar igual Tiranossauro Rex segundo a segundo, só não acabou em morte por um pouco de sorte com incompetência.

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Me peguei acuado pela tirania da felicidade: percebi que tenho uma conta no Instagram há anos e nunca postei nada, logo eu que sei que quase tudo aquilo é fingimento, pois se fosse verdade era para o nosso mundo estar alegre e o poder não sambaria na nossa cara como samba. Só que não, nosso mundo tá muito sujo de indiferença e desigualdade. De agora em diante irei tentar colocar o meu pior por lá: frases, trechos errantes e eu mesmo. Dica para os pais: aconselhem as crianças a desobedecerem os padrões desde cedo.

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A gente tem brincado com coisas sérias e levado a sério coisas que não deveriam ser sérias. Vou dizer para você: amor e beleza são coisas sérias, o que não é sério é bolsa de valores.

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Num dia besta qualquer a mulher que você ama mexe os cabelos e aquele perfume atinge o teu nariz, atravessa teus olhos, entra pelos teus poros e faz uma primavera nascer dentro de você: pronto, o dia besta está perfeito! Se você nunca sentiu algo assim então é bem provável que também não sentirá dores tão devastadoras. Não sei se isso é bom ou ruim, em mim foi inevitável.

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Calma, ainda vou dizer o que é depressão. Eu vivo de lentidões. É preciso paciência e olhos que escutam para tentar enxergar coisinhas bem simples e bonitas pelo caminho, pois você pode precisar delas amanhã para vencer algum dia mais difícil, nunca se sabe. Você já reparou quanta coisa boba que você nem lembrava mais aparece numa saudade? Tem saudade que dói de alegria que não volta mais, tem saudade de alegria porque vai voltar, tem mais um monte de saudade. Tenho andado cheio de uma saudade que me deixa bem triste com tudo.

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Para alguém: quando bem velho ainda sentirei saudades de ti?

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Agora que a gente se relaciona com pessoas como se relaciona com mercadorias, você provavelmente já deve ter escutado que na vida tudo passa e tudo se esquece. Mas não é assim não. A gente não substitui pessoas como substituímos peça de carro. Tem gente que fica tatuada no coração, e aí o que dá para fazer é arrumar um cantinho dentro da gente e acomodar com carinho. Quando a gente estiver bem velho e tiver com várias pessoas guardadas, então vamos pesar de saudades. Eu não, sempre acho que não chego tão longe.

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Para alguém: ainda não consegui arrumar seu cantinho, você é muito espaçosa.

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Já se pegou sentindo alguma coisa muito estranha em você e ficou com medo de enlouquecer? Espero que não, é como se equilibrar com um pé só na beiradinha de um precipício olhando para baixo: desesperador! Se um dia eu enlouquecer espero que lembrem que louco não é malvado, malvada é muita gente graduada que está em Brasília.

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Aqueles dois reais perdidos no bolso da sua calça podem significar a única refeição do dia de alguém. Para quem está se sentindo sem saída, sozinho, sem conseguir se comunicar e com muito medo dentro da própria cabeça, apenas o barulho de crianças brincando num parque pode funcionar como boia salva-vidas para continuar se sentindo humano. Aos desconhecidos que encontrei ou fui encontrado pelo caminho: vocês não sabem, mas me mantive aquecido em pequenos gestos e gentilezas que para vocês não foram nada. Para todos nós: às vezes aquilo que para você é tão insignificante pode ser muito valioso para o outro, uma roupa sem uso, um brinquedo parado, um pedaço de pão, um lápis, um gesto ou algumas palavras… nunca se sabe.

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O que fazer com a raiva que sentimos quando ela é tão grande e o mundo inteiro parece tão errado? Corra, suma de perto, mas não desconte em mulher, criança, cachorro e nem em ninguém. A Coisa eu amanso com musculação, natação e alguma arte marcial. Se a gente sabe que ninguém é perfeito, por que estamos vivendo de fingimentos?

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Todo mundo que passa por situações limites descobre amigo que não era amigo, inimigo que é amigo e gente que você nem imaginava oferecendo alguma ajuda.

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A gente tem romantizado muito a ideia de um adulto com superpoderes capaz de aguentar qualquer tipo de dor e fazer sucesso com ela. O Instagram inteiro é sobre oferecer um produto ou técnica para curar sua dor. Vou te contar a versão da vida real: adulto rasga fácil, é feito de um tecido até mais frágil que o de uma criança. Ainda que o mundo queira convencer de que você só depende de gratidão e amor próprio… “perde alguém que você ama para ver o quanto você não é ninguém” (Viviane Mosé).

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Ainda na contramão desse mundo eu te digo, a gente anda se achando muita coisa… a gente acha que vai destruir o mundo, a vida e o meio ambiente (vamos destruir a gente mesmo), a gente acha que tem um Euzinho capaz de decidir e deliberar sobre tudo, a gente acha que sabe o que o outro sente e já vai logo dizendo que…, a gente acha que a razão domestica todas as forças. Até Freud acha que explica e que pode entrar no inconsciente e sair de lá com significados aprisionados na interpretose que ele fez de Édipo. Das nossas bolhas andamos criando uma imagem fantasiosa de nós que é isolada de todas as criaturas vivas. Nós somos povoados por multidões de vidas, só existimos em relação. Se amanhã ou depois apenas as colônias de bactérias que nos habitam resolverem nos despovoar, vamos cair durinhos no chão!

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As estrelas, os astros, o universo inteiro não dão a mínima se é uma barata ou nós que estamos sofrendo. Se a gente não se descobrir como seres absolutamente dependentes uns dos outros, frágeis, contraditórios, passíveis, vulneráveis e errantes… É justamente daí que reside a nossa força para se conjugar com outras forças e é daí que o amor surge como a única força capaz de nos “salvar” da morte: os gregos antigos sabiam muito bem disso. Agora olhe ao redor e reflita: a imagem autossuficiente que temos feito de nós mesmos tem dado certo? Eros abandonou essa terra há muito tempo e a solidão está nos devastando, isolando, enfraquecendo. Dica: neoliberalismo é menos sobre economia e muito mais sobre desejo e subjetividade, inclusive, muito psicólogo por aí tem rimado desejo na gramática neoliberal.

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Para circular mais fácil em determinados contextos, aprendi truques para colocar rosto feliz na cara mesmo estando muito triste. Também aprendi a afugentar gente só com olhar quando estou com a energia muito baixa, é para tentar me defender – eu sei que preciso desaprender, mas é quase instintivo. Ultimamente tenho deixado o rosto solto. Quando estou só muito triste eu até acho que me cai muito bem o jeito que eu falo “A Minha!” quando me perguntam que cara é essa, mas quando estou com a vida embrulhada recebo como uma tijolada. A Coisa quando está presente deixa a gente muito vulnerável, do contrário não é ela.

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Pornografia é uma ficção inventada por e para machos que ainda estão parados nos filmes do Rambo. Na vida real, muitas e muitas vezes você só quer deitar, virar de lado, abraçar a pessoa que você ama, dizer algo bobo e dormir como uma pluma flutuando pelas nuvens. São coisas assim que você pode chamar de milagre.

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Tem gente que não tem medo que eu possa estragar o dia delas e aí não vai embora. Nunca aconteceu de alguém demorar mais tempo comigo e não dizer algo como “Nossa, não imaginava que você fosse essa pessoa!”, aí a Coisa começa pinicar. Em algum momento vou estar me sentindo tão vazio e silenciado que você vai ver outra pessoa e eu irei te decepcionar. – Estou com esse pedaço na minha mão agora sem saber se colo de volta ou tento arrumar outro. O que você pensou que eu fosse?

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Para os meus Eus do futuro: você sempre vai ter que brigar para ser quem você é. O mundo está longe de ser um lugar acolhedor, ele está cada vez mais frio e indiferente. Cuidado com os intelectuais, eles são os mais frios.

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“Como são frios esses intelectuais! Que um raio caia em sua comida! Que eles aprendam a comer fogo!” – Nietzsche. Esse cara tinha depressão também, só que com outro nome. Você só vai aprender a pensar o dia que chegar na cara dele e falar “E aí super-homem, quando Salomé te deu um pé na bunda o que você fez com o amor-fati?” Sabia que dá para chegar junto com odium-fati? Tem um louco lá da Romênia que pode te dar os caminhos, mas conselho de quem sabe fazer dar errado: tem livro de filosofia que pode desgraçar tua vida.

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Para alguém: não queria que você me achasse inteligente, só queria que me desejasse ao teu lado.

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Faz muito tempo que não leio alguma coisa, mais de ano! Só coisas que não representam perigo como design, programação e marketing. Tenho pólvora demais na minha cabeça, a única coisa perigosa que queria ler agora seriam aqueles olhos… se você souber de lentidões vai perceber que a pessoa tem uma galáxia inteira a ser explorada pela íris, escorrega por lá que você acessa o interior da pessoa. Tem pessoa que é tão bonita por dentro e por fora que você quer morar lá dentro do coração dela. Eu conheço uma pessoa assim. Meu interior eu escondo porque a Coisa mora lá. Agora não está mais escondido.

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Pessoas deprimidas gastam boa parte da energia em batalhas internas invisíveis, outra parte para tentar se remendar de coisas letais que escutam por aí, o que sobra mal dá pra terminar o dia com banho tomado: sorrir é muito bom, só que passa a ser um luxo que o corpo dispensa.

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Tem gente que que está com o rosto sério ou até triste e sorrindo boa parte do tempo com o coração e você nem vê, tem gente que faz um baita esforço para andar com a boca aberta e os dentes brancos à mostra em forma de sorriso só que o coração anda cheio de ódio. Dá para sorrir de muitos jeitos que não usa a boca, assim como há silêncio capaz de dizer um “eu te amo tanto!” que palavra alguma conseguiria dizer.

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A pessoa não está exagerando só porque você não vê sangue. Num momento de crise, muita gente trocaria a dor invisível por muita coisa grave de UTI por aí sem pensar duas vezes se pudesse. A força que escreve esses escritos também é invisível. Vou te contar outro invisível: o amor é a força invisível mais poderosa do mundo. Toda criatura tocada pelo amor se transforma: gente, bicho, planta. Ao longo da história o amor já derrubou impérios, sangrou coração de deuses e levou homens e mulheres ao túmulo triunfantes com um sorriso nos lábios.

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Escutei a vida toda uma versão de depressão que nunca me coube, por que você não pode esperar a minha? Se você souber ler entrelinhas ela já está sendo contada desde o início.

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Quem não tem paciência e não sabe ler entrelinhas não sabe tatear amor. Para tatear amor, além de bom coração, precisa ter pele e olhos que escutam. Ele passa por você como nuvens que flanam num dia de sol sem vento. Já paixão é outra coisa, é uma flechada no meio da tua testa que te deixa entontecido igual fada alcoolizada. Homem já vem de fábrica com muitos retardos de viver, para homem conseguir sentir amor ele precisa destruir camadas e mais camadas do padrão macho de existir, e isso é trabalho para vida toda. Amor é difícil de tatear, às vezes a pessoa que mais pensa em você é aquela que você nem liga muito. Quando consigo tatear amor a Coisa sopra no meu estômago algo como “E quando ela descobrir que eu te possuo?”, aí eu travo – descobri isso enquanto colava esse pedaço de volta, mas prefiro procurar outro. Se você já viu a pessoa descabelada, surtada, tendo um péssimo dia e ainda continua querendo estar com ela, então é provável que você esteja muito encrencado. Amor a gente ama o outro até aos cacos: descobri isso não faz muito tempo, posso estar errado, mas acho que estou certo.

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Quando alguém muito especial se vai sempre deixa alguma coisa conosco que pode deixar a gente melhorado. Mulher tem enigmas que não acabam mais. Quando vai embora, a Coisa também me deixa melhorado, apesar de arrebentado. Se um dia eu descobrir os enigmas dela talvez eu me cure. A Coisa seria uma mulher?

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É provável que você nunca irá poder juntar seu primeiro milhão e nem ter iate de luxo para os fins de semana. Mas vou te contar: quando a Coisa deixa a vida com gosto de morte, me vem a culpa como uma machadada dizer algo como “Não está te faltando nada, só que não há vida em você e tuas economias não podem fazer nada por ti!”. É horrível sentir isso, por outro lado, lutando para encontrar um pouco de ar por aí, descobri que é na simplicidade e nos pequenos detalhes que a vida pode estar acomodada. Já encontrei vida alimentando animais de rua por aí.

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Enquanto me sentia totalmente estrangeiro do mundo desejando alguma presença humana para me sentir humano também descobri duas coisas que ainda estão movimentando minha cabeça: 1) tem gente que votou no 13 e funciona mais como quem votou no 17, e vice-versa. 2) o ser humano é complexo demais, extremamente complexo! Não se esqueça: política é gestão de afetos.

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No Brasil a vida está asfixiada entre dois brutamontes, mas apenas um deles claramente pratica destruição e morte por prazer.

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Lamento, mas quando fechou tudo perdi o pouco que tinha para lidar com a Coisa. Passei minha quarentena com o peito forrado de culpa e o crânio jorrando pensamentos suicidas desejando um vírus de estimação pra mim enquanto os que se dizem mais humanos gritavam “FicaEmCasaArrombado”, como se um problema grave tivesse cessado todos os outros problemas graves do mundo. Vi gente se afundando em dor e perdas de todo o tipo. Do conforto da cadeira é fácil gritar ideias simples para problemas complexos demais, mas muita gente não tinha nem cadeira. O “FicaEmCasaSePuder” foi mea culpa? – Você sabia que alguns acham que ideação suicida é tipo um hobbie que a pessoa decide ter?

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Ao “meu meio” de esquerda que me chamou de privilegiado quando tentava acenar por alguma presença humana: vocês perderam a noção do que é privilégio, aliás, perderam a noção de muita coisa. Voltem na fala do Mano Brown “naquele dia” de 2018 e escutem repetidas vezes… porque não aprenderam nada. Importante: 2022 é logo ali, não vão achar que o cara tem super-poderes igual em 2018, não tem.

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Um genocida não chega ao poder sozinho, é preciso de milhares e milhares de pequenos desejos genocidazinhos com que praticamos no dia a dia com o outro e com nós mesmos. O pequeno fascismo nosso de cada dia não tem direita nem esquerda. Que tal começarmos uma revolução a partir de nós mesmos?

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Literatura e poesia não trabalham com definições, no entanto, são narrativas que mais próximas conseguem chegar no que se passa na cabeça de uma pessoa deprimida, porém, a gente ainda não entende que arte é menos sobre imaginação e ficção do que um tipo de medicina essencial para o humano. Sabia que há ficções que curam? O amor é uma delas.

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Para alguém: me sinto muito triste com o mundo, só tem aumentado fome, indiferença e coisa ruim, mas quando você está por perto tá tudo tão cheio de alegria.

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Você está com a perna quebrada e não consegue correr. Você está com a “alma” quebrada e não consegue sorrir. Quem incomoda muito mais?

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Depressão não tem cara. A cara da depressão pode ser igual a sua, a minha ou a de todo mundo. Ela não escolhe sexo, gênero, classe e muito menos escolaridade. Talvez você não saiba, mas é bom saber: até louco nem sempre tem cara de louco, às vezes tem cara igual a sua. Você acha que loucura é coisa de outro mundo? É coisa de seres humanos.

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As pessoas tendem a achar que a pessoa é quem decidiu se matar, mas não é bem assim. Existe uma atmosfera muito esquisita que vai te arrastando para um longo processo até se convencer de que realmente não há mais saída. Você nem se dá conta de que está almoçando ou fazendo uma esteira enquanto sua cabeça está “refletindo” sobre a decisão, nem se dá conta que não renovou o seguro do carro porque “não vai precisar mais”. Não é a pessoa que pensa, ela é invadida o tempo todo por ideações suicidas. A gente não decide nada sobre a vida, a vida é que decide em nós, apesar de nós. A vida quer viver independente da nossa vontade, experimenta se afogar no tanque para ver como ela te tira dessa rapidinho. É preciso um processo bem exaustivo para a pessoa se “convencer” de que não resta mais o que fazer. Tudo se passa como uma questão de dar um fim a uma dor insuportável demais, não se percebe que o fim é o Fim de tudo – morte. Coloca uma coisa na tua cabeça: não é pessoa louca que se mata, é pessoa boa, pessoa má não se mata, mata o outro! Espero que você saiba quem é a pessoa que mais mata hoje no Brasil.

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Vou te levar para conhecer uma dama, velha conhecida minha desde crianaça. Apenas confie. Feche os olhos, fique em silêncio e faça um passeio por você há uns 10 anos atrás… parece que foi ontem não? Agora imagine você daqui uns 10 anos mais velho(a)… – tem muito chão ainda esses anos todos, certo? Agora um último esforço, imagine que você está com esses 10 anos mais velho(a) só que olhando para o você de agora… – o que antes parecia tão distante parece que foi ontem, consegue sentir? Essa é a Morte! Não se assuste, apesar de ser vista como uma bruxa ela é a mais sábia conselheira sobre a vida, pois desde que o mundo é mundo ela participa da vida de todas as criaturas. Não tenha medo: bruxa era mulher que queria ser mulher na Idade Média. Tenho que te contar algo triste: ainda hoje você vai ver mulher que quer ser mulher sendo chamada de puta – é o mesmo nome, só que mudado.

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Depressão não é algo apenas da modernidade ocidental (só o nome), cada cultura a inscreve dentro de alguma narrativa e até mesmo ritual. A modernidade ocidental é só um solo cada vez mais fértil para que ela se desenvolva por inúmeros aspectos. Pode ser ou não invenção da indústria, depende, tem tipo de depressão que inventam todo ano. Sabia que todo transtorno e toda dor são objetos essenciais para o marketing? Brainstorming do marketing começa perguntando qual dor o produto pode resolver. O Zuckeberg sabe, cada algoritimo das suas redes terroríficas é programado para funcionar de acordo com as variáveis de cada transtorno ou dificuldade.

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O que você acha que uma pessoa deprimida espera quando resolve te chamar para conversar, resolver os problemas dela? Tem pessoa deprimida que sabe mais que qualquer um que só ela poderá sair do buraco em que se meteu, isso é um dos motivos pelo qual ela evita falar sobre o que está acontecendo. Às vezes ela só quer falar de coisas costumeiras para ver o que acontece com ela, às vezes é porque ela está com medo de enlouquecer mesmo, às vezes é porque ela já está distante demais da Terra e precisa de presença para poder se resgatar como humana também. Você sabia que o desejo pode nascer pelo meio do caminho?

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Com 10 ou 15% da capacidade vital e os dias sendo arrastados para depois começar tudo a mesma coisa, tal como Sísifo, tem pessoa deprimida que funciona melhor que muita gente feliz. Preguiça é coisa que os donos e herdeiros do capital fizeram você acreditar que é ruim para que eles possam ser preguiçosos enquanto você se mata de trabalhar. Presente para você: preguiça não é oficina do diabo, preguiça é algo muito gostoso.

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Para alguém: trocaria qualquer prêmio de loteria se pudesse ficar de preguiça com você, olhando as estrelas e filosofando coisas horríveis e belas sobre a vida.

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Vou te contar sobre a fraqueza da depressão: imagine que amanhã metade da população mundial ou talvez com bem menos que isso acordasse bem deprimida… A gente paralisaria essa maquinaria de gerar lucro às custas de vidas do dia para noite sem o menor esforço. Dinheiro e poder não levantam pessoa deprimida. Depressão é uma força altamente disruptiva, a cada vez que você retorna do mundo dos mortos, algo em você muda.

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Dizem que é difícil conviver com pessoas deprimidas. Eu vejo pessoas não sabendo conviver. Na pandemia o que mais vi foram famílias e casais se esburacando, mulheres descobrindo que tinham ao lado um monstro e não o que elas achavam, pais não suportando filhos e vice-versa. O que você pode ter de mais precioso na vida é fluir no tempo com quem você ama. É no tempo com o outro que se descobre novos sentimentos e sensações, é no tempo que se alinham olhos, boca e silêncio, é no tempo que pequenos detalhes são captados como se fossem pequenas caixinhas com uma surpresa de vida dentro. A propósito, você sabe conviver consigo mesmo? Confesso, quando eu e a Coisa estamos em guerra e fico muito cansado, tomo remédio para me esquecer.

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Quando criança havia um tipo de demônio, me diziam os adultos, que apareceria durante a noite caso eu desobedecesse. Eu nunca o vi, mas passei a dormir com a cabeça e o corpo todos fechados dentro do cobertor. No calor era horrível, mas o medo era maior. Um dia na escola, descrevi o demônio numa redação que pedia para falar de um medo só nosso. Aí o medo sumiu e passei a desobedecer mais. Hoje tenho medo só de mim mesmo, mas continuo desobedecendo e espero que agora a Coisa fique menos assustadora.

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Estamos chegando ao fim, imagino que esse passeio tenha provocado várias sensações em você. É assim mesmo, pessoa deprimida não necessariamente enche seu dia de tristeza.

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A “frescura” mata pessoas todos os dias, inclusive criança. Às vezes a peça final que faltava para a pessoa completar o seu quadro de provas de que não dá mais para continuar, pode vir de uma coisa boba que você fez. Também pode vir de você uma coisa boba qualquer para desmontar todo o quadro.

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Depressão é um jeito estranho e avassalador de doer diante da brutalidade com que muita gente feliz machuca a vida. – Essa é a definição que criei na minha cabeça e se ajusta bem à que me dói.

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A Coisa também me fez com amor e beleza, apesar de tudo.

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Para alguém: você não sabe, mas muito do que está aqui eu aprendi com você.

MAYA E LARA

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*Foto encontrada na web, provavelmente é uma montagem que funciona como um espelho de nossas cumplicidades microfascistas diárias.

Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, músicas e arte marginais, mas também psicólogo, filósofo, escritor de trechos errantes. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver e fotografar coisas que ninguém quer ver.