Filosofia Sociopolíticos

Pequena história da dívida infinita

Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra

É possível dizer que um grego não dava a mínima para Sócrates ou Platão. Sócrates foi forçado a tomar a cicuta que o envenenaria. Na verdade, diz-se que Sócrates desejou sua morte, pois teve muitas possibilidades de escapar, no entanto, ele acreditava que o corpo era o túmulo da alma e devia ser condenado em nome do Bem enquanto valor acima da vida, um ideal de justiça fora do plano da vida. Não importa se os homens erraram ou não no julgamento, o que importava para Sócrates era obedecer á Lei enquanto ideal acima dos homens. Platão, discípulo de Sócrates, então preparou as bases em um modelo teórico astucioso, o primeiro plano de transcendência organizado. Mas foi com o cristianismo que a transcendência definitivamente desencarnou o homem do corpo e da vida, daí que Nietzsche dirá que o cristianismo é um platonismo para o povo.

Em Platão a dívida era com o modelo perfeito, no cristianismo a dívida era com Deus e Freud internalizou a dívida no próprio indivíduo. Mas só o capitalismo elevou a dívida ao infinito, dívida com o corpo, com o amor, com o outro, com o tempo, com o jeito de ser, com os estados de espírito, com a sexualidade,… dívida por não ter, por não ser, por não frequentar. O Capitalismo é o Senhor da Impotência, reina soberano a partir do entristecimento dos corpos.

O castigo e a punição já não vêm de um plano divino, somos nossos próprios carrascos, temos uma metafísica moderna da culpa muito sofisticada: preciso me formar em medicina, preciso falar inglês e francês, preciso ter um cozinha gourmet, preciso de um tênis para corrida – e outro para ficar em casa, preciso pagar o boleto, preciso de um tratamento capilar, preciso que minha filha estude na melhor faculdade, preciso fazer dieta, preciso… consumimos cada vez mais modos de viver, saberes e objetos esperando aplacar a sensação de espera pelo dia que estaremos aptos para viver. E ao final, ainda falta. E frequentamos terapias e escutamos que é assim mesmo, e ao final até nos consolamos com a falta como constitutiva de nós sem nos perguntar de onde começaram a surgir os primeiros atravessadores do desejo. E poderíamos nos sentir plenos se vivemos nas alturas percorrendo modelos, ideais, projetos e modos de viver fabricados com desejos e afetos que não os nossos?

A interiorização da dívida e da culpa no capitalismo em seu estágio neoliberal faz de qualquer sacerdote ou tirano um amador, nunca na história os homens, equilibrados pelos afetos do medo e da esperança, foram tão inimigos e vigias de si mesmos. Além de produzir iPhones, passagens promocionais para a Disney e escovas de dentes elétricas, esse plano de organização da vida é o único que se tem conhecimento onde os escravos não se rebelam ou onde os oprimidos veem nos oprimidos a causa da própria opressão. Paradoxalmente, os escravos e oprimidos são os próprios opressores na medida em que, cegos às sutilezas com que vão sendo tornados tristes e lançados no buraco da dívida, veem uns nos outros a causa de seus próprios infortúnios.

Imaginemos que por um só dia, um só dia a alegria se derramasse sobre a terra e banhasse todos os homens, e já teria sido o suficiente para dinamitar profundamente todo esse modo de funcionamento social, pois é a tristeza cristalizada em impotência, e não o lucro, que mantém os homens desejando a própria repressão. E então o amanhã seria radicalmente algo ainda inimaginável.


Texto relacionado: O homem endividado: a culpa como motor do capitalismo

Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.