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Nietzsche e a afirmação da vida

Escrito por Vinícius Siqueira

A afirmação da vida é o núcleo do pensamento de Nietzsche, no entanto, sua vida e obra são fontes inesgotáveis de leituras equivocadas. Sua escrita aforística, permeada de alegorias e, por que não, muitas vezes poética, impede que sua obra seja acessível às exigências da leitura de consumo. Exige-se tempo, idas e voltas, trilhar caminhos sem pontos de partida nem de chegada, persistência e, sobretudo, um espírito que desconfia de si mesmo e que tenha a coragem de suportar a sua própria desconstrução, pois o novo homem que pede passagem só poderá nascer em um mundo cujos modelos, ídolos, deuses, moral e demais estruturas de rebanho tenham sido destruídas. E quem, em uma cultura egóica, tem a honestidade consigo mesmo, hoje, de se despir de seus mais íntimos valores e desconfiar de si mesmo? Definitivamente, Nietzsche não se apreende em frases nem em recortes como aqueles para os “estressados”.

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A vida como afirmação de si, como criação, como inventividade, como liberação dos instintos, como arte e como dança! A princípio, não parece ser verdade que essa é a filosofia Nietzscheana em seu núcleo, no entanto, não tenham dúvida, este é o impulso central de sua obra.

Nietzsche foi vítima de sua própria vaidade: não era um autor que queria ser entendido por todos. Sua maneira enigmática de escrever, quase sempre por meio de aforismas (ou muito curtos ou muito longos), não é fácil de acompanhar.

Talvez por isso seja mais comum ouvir por aí sobre um Nietzsche antissemita, patrono do nazismo, em vez de um Nietzsche criativo e amante da vida.

Nietzsche ser difícil de ler não é o único complicador. Após sua morte, Elisabeth Förster-Nietzsche, irmã do filósofo, preparou uma edição das obras completas de Nietzsche para que ficasse subentendido uma certa repulsa do autor aos movimentos sociais, às coletividades políticas e (seguindo os interesses da editora) uma grande rejeição ao povo judeu.

Entender Nietzsche envolve entender porque o filósofo é tão pouco compreendido. Depois de saber que sua filosofia é hermética e requer cuidados especiais – principalmente para não cair na arapuca nazista – podemos continuar sua apresentação.

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Nietzsche, solidão como vida

De todas as suas obras, talvez Assim Falou Zaratustra seja a mais densa, a mais hermética. Não é para menos, foi resultado de sua extensa peregrinação pela Europa nos anos 80 do século XIX: Nietzsche adoeceu e precisou abandonar seu posto de professor na Universidade da Basileia, se retirou da docência e decidiu seguir sua vida sem rumos certos, parava onde os ventos lhe agradavam, onde a comida era boa e sua mente pensava lúcida.

Este estilo de vida nômade foi colocado no papel por meio do Zaratustra, um Deus persa que viveu seis séculos antes de cristo, utilizado para representar um novo tipo de homem, que transborda em sua sabedoria e, por isso, desce de seu refúgio na montanha para procurar outras pessoas como ele. Zaratustra é como uma compilação da teoria nietzscheana corporificada no novo homem.

Quando desce da montanha, Zaratustra aborda um sábio morador da floresta e, durante a conversa, percebe que o velho sábio odeia os homens e ama os deuses, por isso se isolou na mata. Como pode um homem se isolar para amar os deuses, indaga Nietzsche por meio de seu personagem, se a solidão é justamente o local perfeito para deixar de amá-los e passar a amar a vida como ela é?

Compaixão é um veneno e os mendigos só sabem viver como mendigos, não se trata de deixar os mendigos morrer de fome, mas que um sujeito “sofredor”, objeto de autoflagelação e autopiedade, nunca vai sair de seu poço de mediocridade, porque só assim ele sabe viver.
Na cidade, ao se encontrar com mendigos que suplicam por sua ajuda, Zaratustra não lhes concede milagres: compaixão é um veneno e os mendigos só sabem viver como mendigos. Perceba, essa passagem é genial porque Nietzsche não está dizendo que mendigos devem morrer de fome, mas que um sujeito “sofredor”, objeto de autoflagelação e autopiedade, nunca vai sair de seu poço de mediocridade, porque só assim ele sabe viver.

A morte de Deus, anunciada em Gaia Ciência, tem seu fogo reacendido em Assim Falou Zaratustra. Não significa a morte de um suposto Deus, mas sim o término das crenças em estruturas exteriores que definem como devemos viver a vida. É com esta morte que a vida deixa de ser vivida tendo como objetivo o além-vida para ser focada na vida de fato).

É necessário viver o mundo, como se só ele existisse, nos diz Zaratustra: a morte de Deus é o início dessa argumentação, que passa pela vontade de potência (a energia criativa que move tudo e se faz como impulso do mundo) e vai até o amor-fati.

Talvez, esteja aqui um dos melhores conceitos de Nietzsche. Amor-fati é o amor pela vida do jeito que ela é. Não se trata de amar a vida apesar de tudo: se trata de amar a vida do jeito que ela é, porque ela é a única que poderia ser.

O término desta apresentação da filosofia nietzscheana deve seguir com o super-homem. Diferente do personagem das histórias em quadrinhos, o além-do-homem buscado por Zaratustra não é alguém invencível, só é alguém livre, um novo tipo de homem, um ser evoluído, propagador da moral natural, que favorece a vida e os instintos.

Muitas vezes, este super-homem será mal interpretado, tido como grosso e mal educado, mas este é um fardo que ele aguentará e nem se importará.

Por fim, Nietzsche formulou uma filosofia não esquemática, não metafísica, porém prática, viva e empolgante: sua morte em 1900 (possivelmente por sífilis) retirou um grande filósofo do mundo, sua obra demorou para ser reconhecida, mas devemos a ele este jeito tão não-moderno de ver o mundo moderno. Com certeza, a ovelha negra dos ocidentais.

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Sobre o autor

Vinícius Siqueira

Vinicius Siqueira é editor do site de cultura e filosofia Colunas Tortas.