Literatura

Vida Trapo

Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra

O que estamos fazendo de nossas vidas? – M. Foucault

Luzes brancas acesas, muito brancas. Liga o computador, outro computador ligando, liga outro. Liga a impressora, outra impressora, desenrola o fio. Liga, liga, liga. O café está pronto. Alguém busca o jornal na portaria. Telefone toca, atende. Toca de novo, aten… toca de novo. Liguem o ar, tá calor! Belas pernas essa cliente tem, o rosto muda. Olá tubo bem, como posso ajudá-la? Um visto aqui por gentileza, isso, prontinho. Telefone toca, toca, toca, toca, toca, para de tocar. Buzinas lá fora, o trânsito parou. Calor, calor, calor. Bunda cansada na cadeira. Cliente com pernas feias, traz muitos papéis e senta. Boa tarde! O rosto endurece. Assina aqui! Só aguardar! Tchau! Banheiro. Alguém jogou papel fora do lixo, um filho da puta. Volta pra cadeira, senta, costas doendo. Sede. Preguiça de buscar água. Telefone toca, toca, atende. Um minuto, vou transferir. Alô? Oi quem fala? Tudo de novo. Abre a pasta, joga a pasta de volta. Esconde na gaveta. Esse aí rasga e joga. Não, esse cliente não é interessante. Esse outro aí da última vez estava com bafo. Lucro e vantagens. Não vou retornar. Dentes brancos à mostra. Sorriso. Falsidade. Máscara, muitas máscaras. O dólar subiu novamente. Eu vi. Chato, ia comprar um celular novo, agora está caro. Elevador sobe. Elevador desce. Elevador sobe, sobe, desce, sobe, desce, desce, sobe. Os olhares se cruzam. Constrangimento. Silêncio. Nossa, que calor, será que chove hoje? Celular toca. Ufa. Oi Lu, tudo bem? Tudo, que bom. Então, tá tudo bem mesmo? Legal! Beijo. Homens de terno e gravata sobem e descem elevadores. Gravatas vermelho-escuro. Dica do marketing. Regras sociais. Capitalização do corpo. Homens de terno e gravata entram e saem de carros. Homens com seus pequenos caixões-diários. Vou até o banco e já volto. Senha. Fila. Fila especial. Espera, espera, espera. Liga e desliga o celular. Abre um aplicativo e o fecha em seguida. Abre e fecha. Mexe, mexe, mexe, mais um velho idiota na fila. Já depositaram o pagamento, acabei de ver! Oba, preciso pagar meu cartão, acredita que gastei mais de 600,00 esse mês? meu marido quer me matar! Ah, e eu então, tenho a prestação do carro pra pagar. Oi senhor, o que deseja? Não, ainda não ficou pronto. Está para ficar pronto, uns… cinco dias. Liga tá, semana que vem, obrigado, tchau. Pés dormentes. Abre o email. Nenhuma mensagem. Abre o facebook, rola, rola, rola, nada. Vazio. Uma mensagem. O rosto se dissolve. Ah, esse idiota! O rosto encrespa. Levanta. Toma um café. Muito açúcar no café. Coração tedioso. Telefone toca, toca, toca. Não atendo, levantei agora! Atende que eu acho que é aquele cara que ficou de retornar para fechar o negócio. Saco! Alô? Hora do almoço. Calor. Restaurante lotado, cheiro de gordura. A porra do ar não está funcionando! Come. Não sabe o gosto. Mexe no celular, abre e fecha aplicativo. Liga a tela. Desliga a tela. Liga novamente. Uma hora. Senta na cadeira. Preguiça. Corpo sentado ou em pé. Luz branca, muito branca. Toma uma água. Por favor… dá licença. Como foi o almoço? Telefone toca. Cliente entra. Celular toca. Boa tarde, o sr. Luis Carlos por favor? É ele. Tudo bem sr. Luis Carlos, devido a fidelidade do senhor estamos oferecendo um cartão especial que o senhor poderá realizar… Rosto encrespa. Cliente gostosa. Rosto dissolve. Que pernas! Olá, boa tarde! Posso ajudá-la? Cara da manutenção do ar na porta. Pode entrar. Espera aí, aí não, aí ó, do outro lado, isso, já te chamo. Senhorita, você gostaria de tomar um cafezinho enquanto conto as vantagens que estamos oferecendo esse mês? Bípede de terno e gravata. Lucro, lucro, lucro, lucro. Bípede de salto alto. O calor tropical rindo lá fora dos idiotas de cu branco escorrendo suor aqui dentro. Todos escondem bem. Mas a porra toda tem que sair por algum lugar. Fim do expediente. Embora já! O corpo está como pedra. Corpo se arrasta. Preciso passar na farmácia. Remédio pra dor de cabeça por favor. Me dá um anti-inflamatório também. A cabeça dói. Maldito semáforo, logo na minha vez. Chega em casa. Janta, banho. Televisão. Parceiro chega. Não tem parceiro. Televisão. Família, família, família, família, subornos, muito suborno. Vida mecanizada. Repetição.  Hábitos e deveres. Jantar. Barulho de talheres tilintam no prato. Rostos em silêncio. Tédio. Amanhã é terça. Trabalho. Emprego. Lucro. Vantagem. Representação. Sistemas de dominação e obediência. Morte, morte, morte, morte, morte… MORTE.

Imagem (quadrinho): publicado em Charlezine


Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.