Psicologia

Sujeitos interiorizados: somos o nosso maior inimigo

somos nosso maior inimigo
Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra
Quando não estamos à altura daquilo que nos acontece e damos causas internas – em geral sentimentos negativos – como justificativas, além de nos fecharmos à compreensão, ficamos à mercê de uma série de censuras e julgamentos, empenhamo-nos em verdadeiros ataques ao “eu” – o Euzinho interno… ele próprio que costuma ser um golpeador do corpo, separando-nos daquilo que nos acontece – o estado internalizado em nós. E nenhuma chama nos devora tão rapidamente quanto os afetos do ressentimento¹. Eis aí o homem como o maior inimigo de si mesmo.

Somos lançados em um meio cuja educação é precária em relação ao conhecimento que Spinoza nos propõe. Conhecemos o mundo a partir de valores de figuras de autoridade, pouco nos ensinaram a experimentar e reconhecer as causas daquilo que nos acontece, muito nos ensinaram a julgar e acusar. A cultura e a educação dominantes são altamente castradoras, o homem predominante no ocidente é profundamente interiorizado, crente em livre-arbítrio e, atualmente, tolamente espiritualizado com as caricaturas de uma liberdade neoliberal que o cega diante da própria servidão. Resta que aquilo que chamamos de Eu ou Ego também se constituiu, dominantemente, como um repositório de fantasmas e superstições, repleto, na maioria das vezes, de castração e táticas de má-fé para (re)agir diante das angústias e infelicidades. E é desse lugar interiorizado que o homem trava terríveis batalhas contra si mesmo, às vezes por uma vida inteira.

(…) a educação sempre foi, no seu modo dominante de ser, uma máquina de adestramento reativo e não uma máquina de adestramento que poria a vida em condições de criar as próprias condições de experimentação da existência. FUGANTI, L. Educação para potência.

Spinoza cita Adão como exemplo de um homem que desconhece as causas – o ignorante (aqui sem a conotação pejorativa). Este teria interpretado o Não comerás do fruto… como um interdito moral. O encontro do seu corpo com o corpo da maçã seria um mau encontro devido a indigestão, envenenamento, intoxicação, decomposição, etc., mas por ignorar as causas Adão interpreta o interdito sob a categoria do Mal. Por ignorância muitos maus encontros são acusados nas categorias do negativo – ao invés de compreender, acusamos e nos encurralamos cada vez mais como sujeitos interiorizados, pois toda acusação pressupõe uma vida marcada por um sentimento de vingança. Acusar a vida e o outro pelos nossos maus encontros pressupõe afetos do ressentimento, “E nenhuma chama nos devora tão rapidamente quanto os afetos do ressentimento.” NIETZSCHE, F. Ecce Homo. Eis aí o homem como o maior inimigo de si mesmo.

Nós não temos sido muito diferentes de Adão. Muitas das nossas ações e comportamentos que nos diminuem, por assim dizer, nossos fracassos, temores, constrangimentos de viver, etc., são externalizados no “Mal” do outro e do mundo a partir de um sujeito interiorizado ignorante das causas. Mas quando o outro não pode ser usado como causa o homem se empenha em atribuir causas internas como justificativas para a sua própria infelicidade. Em ambos os casos ele permanece na ignorância das causas. Importante ressaltar que nos nossos tempos os diagnósticos de doença mental podem ocupar esse lugar de legitimação de uma causa externa para construir narrativas da própria infelicidade, mas essa dimensão não exclui a internalização do fracasso e da infelicidade diante de uma sociedade de dever à felicidade e ao sucesso, apesar de tais narrativas encontrarem ressonâncias a partir de um social psiquiatrizado, a culpabilização de si também aumenta (ver Falta e culpa na sociedade do espetáculo).

Assim como acusamos o outro e a vida pelas nossas infelicidades, também nos rotulamos facilmente de ansiosos, impulsivos, tímidos, depressivos, irascíveis, amargurados, apáticos, etc. Quando não estamos à altura daquilo que nos acontece e damos causas internas – em geral sentimentos negativos – como justificativas, além de nos fecharmos à compreensão, ficamos à mercê de uma série de censuras e julgamentos, empenhamo-nos em verdadeiros ataques ao “eu” – o Euzinho interno… ele próprio que costuma ser um golpeador do corpo, separando-nos daquilo que nos acontece – o estado internalizado em nós.

Tais internalizações são subprodutos de uma cultura punitiva que desde quando nascemos costuma limitar um aprendizado baseado em regras já estabelecidas com valores de certo/errado, bem/mal, justo/injusto etc., isso reduz nossa capacidade compreensiva, tendo efeitos catastróficos na constituição de um pensamento enquanto faculdade reprodutora e julgadora da vida sujeito a todo tipo de equívocos. Não é por menos que temos uma dificuldade imensa para fazer verdadeiras experimentações e mudanças de vida, limitamos a consumir as opções disponíveis – o mercado de elementos existenciais considerados aptos para uma vida feliz nunca esteve tão rentável.

Internalizações nos tornam poucos perceptíveis aos afetos que foram se formando e tornando dominantes em nós a partir das interações com o meio. Não consegui porque sou ansioso demais, na hora fiquei tímido, diz um jovem sobre o seu fracasso amoroso. Levando esse tipo de compreensão internalizada adiante nos atormentamos com recriminações. Em outras palavras, na maior parte das vezes somos nós mesmos os nossos maiores inimigos.

Um cuidado é necessário com o título deste texto. Somos o nosso maior inimigo, mas não façamos disso uma lógica de autoajuda que costuma pegar esse tipo de raciocínio e nos lançar nas superficialidades de um Eu capaz de realizar algumas magias para colorir a vida. São diversos os mantras moralizantes em forma de pensamento positivo, inclusive flertados por alguns psicoterapeutas que irão nos dizer que pensar positivo é… dizem que cura até câncer! O pensamento pensa em nós (ver A consciência é uma doença), é mais uma questão de que encontros e composições que somos capazes de realizar com o mundo do que uma questão moralizante de negativo ou positivo. Bons encontros podem gerar os tais “pensamentos positivos”, mas nunca se pensa positivamente por si só.

Ilustração: John Holcroft

Ilustração: John Holcroft

Na contramão do dever à felicidade que tem no pensamento positivo um mantra, iremos puxar algumas linhas spinozanas para pensar sobre como nos tornamos implacáveis inimigos de nós mesmos e reduzidos da capacidade de pensar as relações de interações com o nosso meio do qual modificamos e somos modificados. Essa “ignorância dos homens”, por assim dizer, é um dos grandes pilares que sustentam duas grandes estruturas produtoras de subjetividade e modos de viver internalizados em si mesmos, o estado e o capital (ver Para além de uma política paranoica).

Não se trata de negar os sentimentos e as emoções, a questão é compreender que nossas afetações são decorrentes das interações com o meio, não é a ansiedade que impede o jovem de abordar a garota, as possíveis respostas estariam nos trajetos percorridos durante a vida. Não há nenhum problema em dizer que estávamos ansiosos, o problema é atribuir ao sentimento a causa do nosso fracasso, tomá-lo como uma justificativa da qual passamos a generalizar para outras tantas situações, daí vamos cada vez mais internalizando culpas e recriminações porque somos… ansiosos, tímidos, impulsivos… demais! Pode ser, sejamos tudo isso, mas vamos além, não sejamos moscas presas nas teias dos significados, queremos cartografar aquilo que acontece conosco, percorrer os trajetos que fazemos e buscar pelas composições e decomposições que nos acontecem a partir dos encontros com o mundo.

Justificar-se através de um sentimento não nos ajuda a encontrar as possíveis causas dos nossos fracassos – e nunca é demais dizer que entre as condições da vida o erro e o fracasso também fazem parte. Quanta bobeira não evitaríamos se passássemos a perceber, simplesmente, com que cara, com que jeito, com que olhos, com que tom de voz nós nos dirigimos ao outro em variadas relações?

Podemos dizer que nosso autoconhecimento é dominantemente sustentado por um psiquismo interiorizado, o que nos leva à formulações baseadas nos efeitos das causas em nós, ficamos restritos a um conhecimento inadequado e confuso típico da consciência ou do ego. Esses lugares de ilusão se atém sobre os efeitos e ignora a complexidade das causas que são composições entre partes do nosso corpo com partes de outros corpos (matéria e ideia). Assim, reduzidos à consciência do acontecimento, tornamo-nos escravos dos efeitos, e mais do que isso, direcionamo-nos para generalizações outras atribuindo os efeitos a causas distintas. Quantas prevaricações lançamos sobre nós, sobre o outro e sobre o mundo – também interiorizados a partir dos nossos (res)sentimentos – quando nos sentimos angustiados e infelizes? Em outras palavras, condenados a conhecer a partir dos efeitos estaremos propensos, dirá Spinoza, a nos tornar escravos de qualquer coisa, e à medida da nossa imperfeição vamos nos adentrando em angústias e insatisfações.

Considerando que a consciência recolhe apenas efeitos, ela vai suprir a sua ignorância invertendo a ordem das coisas, tomando os efeitos pelas causas (ilusão das causas finais): o efeito de um corpo sobre o nosso, ela vai convertê-la em causa final da ação do corpo exterior: e fará da idéia desse efeito a causa final de suas próprias ações. Desde esse momento, tomar-se-á a si própria por causa primeira e invocará o seu poder sobre o corpo (ilusão dos decretos livres). Nos casos em que a consciência não pode mais imaginar-se causa primeira, nem organizadora dos fins, invoca um Deus dotado de entendimento e de vontade, operando por causas finais ou decretos livres, para preparar para o homem um mundo na medida de sua glória e dos seus castigos (ilusão teológica). DELEUZE, G. Espinosa – Filosofia Prática.

Compreender que a causa daquilo que nos acontece está nas interações com o mundo pode nos levar a empenhos mais favoráveis à mudanças, diferente de travar uma luta interna que nos consome toda energia. Demasiadamente presos ao abismo do Eu, não enxergamos o mundo mais do que um dado fático da existência. Pouco percebemos que o tempo inteiro estamos numa relação inexorável onde modificamos e somos modificados ao sabor dos encontros, somos pouco apurados naquilo que é a principal bússola existencial, os nossos afetos, afetos que não se restringem a sentimentos e emoções, mas na compreensão daquilo que nos compõe e decompõe, aumenta ou diminui nossa potência de agir (ver Por uma ética das paixões alegres).

Não estamos em vias de compreender tudo aquilo que nos acontece, falamos em compreender a causa daquilo que nos modifica, mas não devemos levar isso no limite. Estamos sendo atravessados o tempo todo por modificações e variações, o mundo nos ultrapassa. Algo se passa. O que se passou? Já passou e ficamos sob a névoa dos sentidos possíveis e em constantes (re)atualizações enquanto nós ainda ficamos a remexer restos e punhados de significações.

As significações estão aí circulando entre nós, nossos fatos de consciência, nossas internalizações e justificativas, nossos conceitos e visões de mundo, mas a realidade nos escapa por todos os lados, o mais próximo que podemos chegar é buscar sentidos que nos sirvam como direções. Mas qual direção seguir? É verdade, somos 24h bombardeados por administradores que querem fazer da vida um grande negócio, eles atormentam os corpos ininterruptamente com um emaranhado de opções que prometem qualidade de vida. Mais uma vez: os nossos afetos compõem um bússola existencial por excelência, é preciso desenvolver um conhecimento capaz de identificar aquilo que aumenta ou diminui nossa potência de agir, é a capacidade de conhecer os afetos que vai nos indicar possíveis trajetos, pois ninguém está em condições de dizer aquilo que é bom por nós. 

Temos que buscar esses sentidos junto aos trajetos e a matéria dos encontros. Em outras palavras, buscamos nos situar, sobretudo, no segundo gênero do conhecimento do qual Spinoza nos fala (ver Espinosa – Razão). Se o conhecimento em Spinoza é aquilo que nos coloca em direção a uma vida mais potente, se conhecer nos importa para que possamos nos lançar em busca de uma vida que nos é boa, não basta sermos uma enciclopédia repleta de conceitos e significações se a gente não se esforça em compreender aquilo que nos alegra ou entristece. Esse conhecimento, que é o mais potente dos afetos, não se debruça sobre as internalizações de um “Eu” narcísico e capitalístico² que se vê como causa de si e daquilo que lhe acontece.

O capitalismo promove uma subjetividade que nos internaliza e nos faz reféns de nós mesmos. Ao invés de praticar “guerra”  contra o estado praticamos guerra contra a vida – contra nós mesmos. Presos nas internalizações desenvolvemos culpa e má-consciência, tornamo-nos corpos entristecidos e, consequentemente, dóceis. Em outras palavras, em matéria de entristecimento da vida o capital é especialista, para que o poder possa funcionar ele precisa entristecer os corpos, rebaixar a vida.

Internalizar as causas daquilo que nos acontece é nos fechar à promoção de mudanças a partir de autocensuras e culpas que alimentam ainda mais a voracidade neurótica do “Eu”. Inculcar o negativo em si atinge proporções graves. Nietzsche analisou que na história do pensamento ocidental o ressentimento passou a ser uma própria patologia do existir. No lugar da compreensão o homem coloca o julgamento que é um modo de avaliar a vida a partir da internalização de sentimentos impotentes. Separados da potência do pensamento nós estamos separados de uma melhor compreensão das causas, vamos internalizando as frustrações em nós, preenchendo-nos com culpa e recriminações. Daí passamos a ter um olhar contaminado sobre a vida e acusamos as pessoas, o mundo e as coisas como responsáveis por aquilo que estamos sentindo. A culpa nunca fica a sós, ela se espalha e contamina, a culpa é também do outro, o de esquerda, o de direita, o de camisa vermelha, o imigrante, o outro é a causa da minha desgraça, diz o corpo do impotente.

E hoje, o capitalismo com suas roupagens de neoliberalismo, mais do que nunca produz corpos marcados pela impotência. Não é por menos que vivemos um período onde, literalmente, a mídia e o conservadorismo se empenham em dividir nosso país entre os do “Bem” (os de direita) e os do “Mal” (os da esquerda), esmagando toda capacidade política a uma paranoia (ver Para além de uma política paranoica). O capitalismo descobriu no entristecimento da vida a sua maior força, associado a uma história de internalização da culpa se sustenta há milênios como o maior empreendimento da história da humanidade mantido por servidão voluntária, e justamente pelo seu regime de internalizações a maioria dos homens não é capaz de compreender as interações e relações que os modificam a partir dos encontros com o mundo, movimentando o pensamento, o agir, o sentir, enfim, produzindo modos de existir e perceber as coisas, daí o servilismo se confunde com liberdade e livre-arbítrio, assim como o conhecimento, também internalizado, reduzido como capacidade de julgar através de categorias de valores binários e, sobretudo, em função da economia, não passa de uma ignorância – Spinoza não nos deixa se enganar a respeito desse tipo de conhecimento.

Uma criancinha acredita apetecer, livremente, o leite; um menino furioso, a vingança; e o intimidado, a fuga. Um homem embriagado também acredita que é pela livre decisão de sua mente que fala aquilo sobre o qual, mais tarde, já sóbrio, preferiria ter calado. Igualmente (…) muitos outros (…) acreditam que assim se expressam por uma livre decisão da mente, quando, na verdade, não são capazes de conter o impulso que os leva a falar. Assim, a própria experiência ensina, não menos claramente que a razão, que os homens se julgam livres apenas porque são conscientes de suas ações, mas desconhecem as causas pelas quais são determinados. SPINOZA, B. Ética, parte III, prop 2 esc.

Conhecer a causa daquilo que nos acontece nos potencializa para buscar compreendes mais efetivas junto às interações com o mundo. Romper com esse sujeito interiorizado que foi produzido, costumeiramente, como sendo causa daquilo que nos acontece e, sobretudo, perceber o devido lugar que grandes estruturas – e não meramente os indivíduos – como o estado, o capital, a religião, a linguagem, e tantas outras, ocupam, com a nossa cumplicidade (ver O ego é cúmplice), nos processos de subjetivação e produção de vida,  é fundamental para nos afastar de tanta ignorância e servidão. Para tanto, prezamos por uma compreensão que vai em  busca de cartografar os nossos trajetos, perceber as modificações, as nuances de alegria e tristeza, os aumentos e as diminuições da nossa potência de agir e de pensar. Nietzsche fazia muito bem isso, em seus trajetos procurava avaliar os efeitos do ambiente, do clima, da alimentação, de uma música, da temperatura etc., sobre a sua potência de agir e pensar. 


1. NIETZSCHE, F. Ecce Homo. 

2. Expressão que Guattari utiliza para enfatizar que o capitalismo, principalmente, produz processos capitalísticos de subjetivação (GUATTARI, F; ROLNIK. S. Cartografias do Desejo)

 

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Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.