Filosofia Psicologia

Sobre a alegria: uma ética de amor à vida

Alegria como força de um corpo que resiste – e resistir é criar – frente a um mundo onde as forças de destruição são em maior número, e as chances de entristecimento ou as vias de neurotização são imensas. Em termos gradativos de intensidades podemos pensar que são várias as maneiras alegradoras, desde uma leveza de viver até um endoidecer, endoidecer de alegria!

Beethoven compôs uma das mais belas sinfonias dedicadas à alegria. Seu hino ou ode à alegria é capaz de fazer os corpos efervescerem de amor pela vida. É belíssimo, é exuberante, é… é necessário imaginar um Beethoven que precisou enlouquecer de alegria para criá-lo. No entanto, foi necessário também calma para não espantar os devires de sofrimento. Antes da sua criação o compositor passava por sofrimentos e descréditos devido a sua surdez que piorara. Daí que uma sabedoria seletiva daquilo que nos acontece é fundamental para que forças alegres possam se compor conosco (ver Por uma ética das paixões alegres).

A alegria irrompe nos corpos. Alimenta-se do real, mas os sopros vêm de fora. Fluxos chegam do fora e entram pelos poros, e a gente sabe quando acontece, a gente sabe quando estamos tomados por alegria e não outra coisa. Nossos sentidos são arejados, pensamento e corpo entram em comunhão e o fogo da vida se acende em nós. Uma força dessas é da ordem da loucura, mas não da loucura psiquiátrica.

É uma loucura ativa, nela não estamos separados de uma potência criadora, portanto, endoidecer de alegria não se confunde com as exaltações dos estados de mania. A força de uma alegria também pode ser tranquila, calma, silenciosa e até mesmo uma solidão em comunhão com o mundo.

Se dizemos que a alegria pode ser da ordem da loucura é porque nos contrapomos à racionalidade de uma vida que aprendeu a fazer uma matemática do risco e gerir as probabilidades de se envergonhar diante dos encontros com o mundo, mas a alegria não se envergonha e não se apequena diante da vida.

Que real é capaz de aborrecer um corpo alegre? As vozes da lamúria silenciam. Não nos implicamos com a implicância do outro. Na alegria abraçamos os aspectos perigosos e problemáticos da existência, aceitamos a vida integralmente tal como ela é. Ao contrário da felicidade que nega, a alegria não exclui o sofrimento e a tristeza, abraça-os, pois sabe de sua potência criadora, é quando nos damos conta de que uma lágrima desce afagando o rosto diante da beleza de um mundo que se descortina aos olhos apesar de… e nada há de excludente em chorar de alegria que é uma das deliciosas maneiras da alegria nos tomar. São nos instantes de alegria que a gente deseja, apesar de tudo, apesar de tudo… viver incondicionalmente essa vida.

Um fôlego de vida nos toma, pulsamos junto a um mundo onde tudo pulsa, lufadas de forças ativas se apoderam de nós e endoidecemos, endoidecemos de alegria! Aqui estamos no auge de um instante que vale a pena ser vivido e gostaríamos de vivê-lo incontáveis e irrepetíveis vezes, e é aqui que a gente sente na pele como o amor fati nietzschiano pode ser vivido.

Instantes de alegria… instantes e não uma vida inteira de alegria. De que valem instantes de alegria em meio a tantas horas e dias e semanas de tédio que podemos contar em uma vida? Ahh o quanto valem essas centelhas que nos acendem! E não é em busca dessas centelhas, uma única centelha capaz de acender uma chama, ainda que seja por breves instantes, que um homem abdica dos confortos prometidos por uma felicidade gregária para se enredar pela arte, pela literatura, pela filosofia… por uma criação que nada vale ao mundo senão para si mesmo? Que momento de luminescência é esse na vida que faz com que um homem também possa ir à sepultura com um hino de alegria à vida nos lábios!

O conhecimento trágicoNão há saber que se presta a como ser alegre. Mas é possível traçar algumas linhas. O que a vida nos exige é presença, estar presente é estar aberto, e estar aberto à alegria enquanto força maior pressupõe um conhecimento trágico. O conhecimento trágico nos permite uma abertura maior às forças do fora, esse fora é composto de forças intensas das quais podem destruir, mas também é a fonte de uma potência criadora. A tradicional história do pensamento só vê perigo nessas forças, daí a captura, a esterilização das intensidades e a representação. Representar é também não se perder em um fora.

Ninguém endoidece de alegria no mundo representativo, que a pele torne permeável ao fora! Um conhecimento trágico nos permite escavar buracos, quem sabe abrir janelas, portas, enfim, aberturas possíveis na crosta dos hábitos, dos códigos, das técnicas, da consciência, da moral, da racionalidade e do utilitarismo que vai se acumulando e nos fechando às intensidades.

Por que alegria? Não porque queremos ser felizes e bem-sucedidos e repletos de amigos, em um mundo cristalizado de neurose e paranoia a alegria causa incômodos e espanta as maiorias, é por isso, e por ser uma força muito intensa que podemos até sentir medo da alegria. Alexander Lowen, por linhas reichianas, insistiu nesse pensamento na clínica. De fato, é necessário coragem, a presença que a vida nos exige é a coragem, coragem de estar presente na vida tal como ela é. Não se pode endoidecer de alegria sem coragem de se expor… ao fora, às forças entristecedoras, aos olhares vigilantes do outro, ao mundo – a alegria se dá no encontro –, mas que nunca se despreze uma sabedoria e uma prudência seletivas daquilo que nos acontece – ou um conhecimento das causas adequadas insistiria Spinoza -, pois as forças externas são sempre mais poderosas e em maior número. Se houver contágios e alianças a alegria aumenta, mas ela independe de reconhecimento e aceitação, quem nunca se pegou rindo sozinho, sem motivos e… meu deus, que alegria é essa que estou sentindo!

É preciso desacreditar na vida da felicidade e dar passagem à alegria enquanto uma ética criadora de vidas mais alegradoras. É preciso falar da alegria e até endoidecer de alegria. Alegria enquanto potência criadora e uma ética de amor à vida.


* C. ROSSET. Alegria – a força maior
Imagem: The Joy of Life. Henri Matisse (1906)

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Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, músicas e arte marginais, mas também psicólogo, filósofo, escritor de trechos errantes. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver e fotografar coisas que ninguém quer ver.