Filosofia

Das relações e da amizade a partir de Spinoza

Decamerone. Raffaello Sorbi, 1876.
Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra

Nosso mundo, apesar de os holofotes publicitários colocarem no centro as pessoas em relações – família e amigos -caricatas e perfeitamente felizes, é também o mundo que nos incita o tempo todo a uma individualidade agressiva. No neoliberalismo cada indivíduo é uma empresa individual, amor e negócios à parte. Você e só você é o responsável pelo seu sucesso e pelo seu fracasso, o peso da culpa por não estar em dia com a profusão dos modos de vida ofertados esmaga cada vez mais as singularidades, formando legiões de depressivos que, ante as flagelações do pensamento por não terem conseguido acompanhar o bonde ultraveloz de um capitalismo neoliberal, refugiam-se cada vez mais em “bunkers” – psicológicos e físicos – contra os excessos de estímulos do mundo.

No entanto, na tentativa de criar uma vida independente, segura e confortável estamos acabando cada vez mais presos em nossos lares e apartamentos cercados de paredes, de grades, de janelas quadradas, de livros, de souvenirs, de seriados e congelados, cercados de coisas e mais coisas – e solitários em nossas mentes também cercadas de muros e grades imaginárias. E para preencher a modorra dos nossos dias temos as redes sociais, assim podemos distrair nossa mente e atenuar o quanto somos prisioneiros de nós mesmos.

Lá fora o improvável dos encontros com um mundo que pode nos afetar, e esse mundo é repleto de contradições e diferenças e marginalidades e incertezas e ameaças e desconhecidos e tudo aquilo que não garante o controle, a segurança e o conforto que temos de dentro dos nossos cercadinhos pessoais, decorados e digitais.

É interessantíssimo utilizar-se das coisas, o que seríamos de nós sem os livros, as músicas, as artes, os nossos cobertores e nossos ursos gigantes de pelúcia? A internet, por exemplo, é muito útil, mas ela não é capaz de nos colocar diante de uma miríade de improváveis que nos forçam a pensar e agir, caras, bocas, silêncios, olhos, corpos, jeitos, posturas etc., não estão presentes nas redes, toda afetividade da linguagem é esmagada nos influxos comunicacionais. Relacionando-se com o mundo através de pequenas telas, muitos não desenvolvem habilidades sociais básicas de interação, daí essas formas estupidificadas, dissêmicas, incapazes de gentilezas e trocas de olhares. E a internet já não tem sido uma forma de comunicação quase que exclusiva entre as pessoas?

O conforto de um sofá, uma taça de vinho mais uma sinfonia em um bom aparelho de som podem nos levar a compor blocos de sensações que nos enchem de contentamento, e o que podemos em estado de contentamento? Escrevemos, pintamos, inventamos novos gestos e expressões, perdemos a vergonha e a impotência cotidiana e saímos para o mundo e o dia que antes mastigávamos como borracha nos enche com suas sinfonias de cores, perfumes, sons, formas e diversidades. Nesse transbordamento descobrimos o amor à vida, essa breve eternidade – (e já não é muito?) – capaz de nos devolver nossos estados de ânimos criadores e vitalizadores que não se constrangem diante dos desconhecidos, pelo contrário, são nesses estados que estamos mais propensos a relacionar-se com pessoas.

São as pessoas e não as coisas que possuem a natureza mais próxima que a nossa, e quanto mais semelhanças entre a natureza dos corpos maiores as possibilidades de se alegrar. Sabedoria espinozana contra a misoginia da subjetividade capitalista travestida de amor.
Pessoas e não coisas! Dirá Spinoza, nada mais útil para o outro homem que o próprio homem, mas parece que fazemos o inverso, buscamos cada vez mais nas coisas a felicidade, e evitamos cada vez mais o contato com o outro, o outro desconhecido, porque não basta ficar triangulando edipianamente na família. O mundo para além das arestas edipianas é que nos coloca em variação e nos força a pensar e agir.

Antes, um cuidado. Apesar de a natureza entre as pessoas ser a mais semelhante que se comparada a outros corpos, não quer dizer que podemos sair nos compondo com todo mundo, todos nós sabemos o quanto somos bons em causar tristezas uns aos outros, aprendemos desde criança, com os adultos, as infinitas e sutis maneiras de punir, magoar, culpar, acusar e julgar, em contrapartida, pouquíssimos somos estimulados à compreensão e a concórdia, e pouco sabemos dos afetos para fazer o melhor uso daquilo que acontece conosco. Mas se aprendemos a discórdia desde crianças, já não teríamos nos destruídos uns aos outros? Toleramos mais do que aceitamos a presença, apesar de termos dado largos passos para a destruição uns dos outros, o medo ainda é o afeto que mais molda as sociedades.

Nada pode combinar melhor com a natureza de uma coisa do que os outros indivíduos da mesma espécie. SPINOZA, B. Ética, IV, cap. 9

Diariamente encontramos pessoas que desejaríamos conhecer e evitamos, temos muitas desculpas para evitar e negar o encontro. Se para nós é tão difícil abordar as pessoas fora de nossos triângulos é porque nosso corpo e nossa mente foram privatizados desde o berço pela família, temos uma subjetividade repleta de muros, simbólicos e imaginários. O mundo lá fora é perigoso e aqui é seguro… a maior mentira para impedir o desenvolvimento. Quem não se envolve não se desenvolve, dizia Gaiarsa contra o amor privatizado da família, não se envolva parece ser um dos deveres das prédicas modernas de relacionamento, coroada pelos denominados machos alpha, uma espécie de machismo com barba e roupa bem cuidada. Não se envolva, o coração neoliberal precisa ser de aço para não sangrar diante dos colapsos que são problemas de cada um. Não se envolva, amanhã você precisa estar feliz e dar o melhor de você…

Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia. – SARAMAGO, J.

Em nosso tempo a solidão é cínica, ela sofistica discursos de desapego e independência, expressões só se tiverem de acordo com as tribos – atualizadas com os seriados e novelas mais bem cotados – e no fundo padece da falta de encontros plenos com o outro. Calamidade solitária, os índices de depressão e ansiedade disparam, o nosso modo consumista e capitalista de viver, ao mesmo tempo em que nos incita aos prazeres desenfreados, também nos segrega em espaços cada vez mais individuais e personalizados. A exortação do desapego é contra o outro e não as coisas, mas Spinoza não nos deixa enganar, é no encontro com o outro, que mais tem de semelhança conosco, que podemos passar de uma perfeição menor para uma maior. Alegrar-se com alguém que nos compõe é muito mais fortalecedor que as pequenas excitações que experimentamos diante dos objetos que desejamos até que eles nos entediem.

E é impossível que o homem não seja uma parte da natureza e que não siga a ordem comum desta. Se, entretanto, vive entre indivíduos tais que combinam com a sua natureza, a sua potência de agir será, por isso mesmo, estimulada e reforçada. Se, contrariamente, vive entre indivíduos tais que em nada combinam com a sua natureza, dificilmente poderá ajustar-se a eles sem uma grande mudança em si mesmo. (ídem, cap. 7)

Ilustração de Steve Cutts

Ilustração de Steve Cutts

O grande problema é quando ao invés de nos servir das coisas e de suas utilidades como meios para aumentar a nossa potência de agir, nós as deixamos nos escravizar. É o caso do impotente que deposita no universo simbólico do capital expresso nas coisas a sua condição para ser algo que ele não é. E nesse sentido o capitalismo é uma máquina fantástica de escravização de corpos e mentes a partir dos objetos que ele produz. Repare na propaganda e constate: produtos são vendidos como artefatos mágicos capazes de fazer com que as pessoas sejam aceitas e amadas.

Com a solidão e a impotência tão em alta não é por acaso que os produtos são envoltos com camadas e mais camadas que prometem, no limite, sermos aceitos e amados incondicionalmente. As coisas produzidas para consumo não prometem o que elas podem, mas o que elas não podem, e elas não podem dar aquilo que nós estamos perdendo: a capacidade de se relacionar com pessoas – e sem emoticons. Não queremos exortar aqui mais um dos deveres da sociedade consumista e repetir o mantra de que devemos nos relacionar e nos curtir porque a vida é curta, isso não passa de metafísica moderna, autoflagelação e culpa aos que não atingem a meta – impossível – do relacionamento como dever.

Relacionar-se é mais uma questão de colocar-se em variação com outros corpos e mentes que desejamos conhecer porque reconhecemos aí as possibilidades de aumentar nossa potência de agir e pensar, de outro modo, limitando-se à segurança das relações privadas e confortáveis as pessoas parecem se usarem umas das outras como anteparo para frequentar lugares que elas desejariam mas não conseguem se estiverem sozinhas. Conjugamos o verbo beber demasiadamente nas relações, não conseguimos falar de outros assuntos ou tememos expressar algo que o outro possa não gostar?

A razão espinozana não exige nada que seja contra a nossa natureza, o que ela exige é que cada qual ame a si próprio e busque o que lhe é útil, que deseje tudo aquilo que efetivamente o conduza a uma maior perfeição e se esforce tanto quanto possível para conservar o seu ser, mas longe de ser o homem egocêntrico que pensa em si mesmo a qualquer custo, o homem livre sabe que sua potência de agir aumenta tanto quanto a potência de agir dos outros é aumentada, vida livre gera vida livre, alegria gera alegria. O que pode a alegria em meio a tanta tristeza e ódio? Um pouco de ar puro senão eu sufoco, adaptamos aqui essa frase de Deleuze (Conversações).

AMIZADE

Spinoza, já no século XVII, dizia que nossos afetos são inconstantes e volúveis, daí a maioria de nós ser inclinada mais às paixões tristes. Do século XVII até hoje nós temos uma produção muito maior de paixões tristes, o ódio, a tristeza, a inveja, a ira, a vingança… o capitalismo não existe sem uma produção incessante do entristecimento das pessoas. Dizemos então que a maioria das pessoas é arrastada mais por paixões tristes que conduzida por uma razão capaz de compreender as relações entre si e a natureza.

Não queremos cair em uma espécie de “amai-vos uns aos outros” de maneira gratuita. A situação é paradoxal. Se de um lado as pessoas são mais propensas às paixões tristes e podem ser potencialmente destrutivas, de outro somos nós mesmos que podemos ser mais úteis uns para com os outros.

Sem universais, o que podemos fazer? Diante da menor insatisfação e desentendimento temos sido mais propensos ao afastamento diante do outro, nossa mentalidade de que não precisamos do outro para nada nos ajuda a sermos contrários, por outro lado, toda relação requer paciência e tempo para ser construída. O filme Las Acacias de Pablo Giorgelli mostra bem isso, um caminhoneiro dá carona para uma mulher e um bebê e durante a viagem tenta ignorá-los, mas aquele espaço-tempo-afetivo envolto muito mais por silêncio que diálogo é capaz de produzir outra relação de ordem mais da confiança que da desconfiança, e isso só foi possível graças a paciência de ambos.

Daí que dizemos, junto de Spinoza, que é necessária uma potência de ânimo singular para aceitar a maneira de ser de cada um, o que não quer dizer que todos se compõem conosco. Os que aprenderam a criticar e reprovar os vícios dos outros sem lhes ensinar virtudes, acabam por se tornar danosos entre si, daí que muitos acabam preferindo reclusões fora do convívio humano, construindo seus muros, sejam físicos ou simbólicos, para evitar e negar os encontros com o outro.

Para Spinoza, quando somos excessivamente intolerantes tendemos a buscar refúgio no isolamento, ele cita o serviço militar e o convívio entre os animais. Spinoza que em relação aos animais é quase um cristão, dirá que deles devemos nos servir da forma como melhor acharmos conveniente. A diferença é que o filósofo fala em nome da diferença de natureza entre os corpos e o cristianismo passa tudo pela visão antropocêntrica. Nós não seguimos à risca esse preceito, mas não deixamos de reconhecer que há pessoas cujo convívio excessivo com os animais é uma forma de intolerância para com os outros.

Uma das melhores virtudes da vida é não responder ao ódio com ódio. É uma posição de quem cuida dos seus afetos, não responder o mal com o mal é uma questão de saúde afetiva e preservação da nossa potência de agir. No nosso mundo a produção do medo tende a nos manter todos atemorizados uns com os outros, o olhar de vigia de cada um é o suficiente para diminuir em grande parte a capacidade de se expressar e agir em nome próprio, diante disso é mais fácil reproduzir e seguir junto à maioria abdicando da nossa própria natureza, e assim a fila de corpos e mentes entristecidos só aumenta.

(…) não é pelas armas que se pacificam os ânimos, mas com amor e generosidade. (ídem, cap.11)

Desenvolver amizades em um mundo onde somos estimulados a relações cada vez mais privatizadas e respirando uma atmosfera repleta de valores individualistas, em um mundo onde as paixões tristes predominam e tendemos a ver uns aos outros enquanto potenciais destrutivos – nem Freud escapou desse olhar de “homem como lobo do homem” – requer uma arte, refinada arte de cuidado, paciência e compreensão. Arte porque não se deixa levar pelo medo para os lugares confortáveis da reclusão, mas também não se joga em qualquer tipo de relação, arte dada pela capacidade de afetar e ser afetado, de reconhecer e compreender, selecionar, enfim, os afetos que melhor se compõem conosco.

Pode ser que haja homens que sejam como lobos para os outros homens, nem por isso o homem livre vai buscar abrigo em uma caverna para se proteger – da vida? do mundo? dos outros corpos? Pelo contrário, quanto mais livres somos mais desejamos explorar as possibilidades de vida, compreendemos que o amor, a generosidade e a amizade possíveis nas relações com o outro são capazes de nos possibilitar mútuo contentamento. Pensamos e agimos melhor quando acompanhados de relações capazes de se compor conosco. No amor andamos entre os lobos e os acariciamos se for necessário.

Uma boa sociedade sabe que o que é mais vantajoso para o homem é o próprio homem. E é neste mundo, dos quais os aviltadores da vida também fazem parte, apesar de tudo, que temos que sair de nossos casulos confortáveis, pois a mais potente das alegrias, o contentamento, se faz nas composições e nos agenciamentos estabelecidos uns com os outros. Pessoas, e não coisas.

Só os homens livres são muito gratos uns para com os outros. SPINOZA, B. Ética, IV, prop. 71


Arte: Decamerone. Raffaello Sorbi, 1876.

Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.