Filosofia

Nietzsche no Facebook, ou como a filosofia é só adorno

Escrito por Vinícius Siqueira

Não seria a filosofia, quando colocada no Facebook, mera peça de roupa? Vista-a e depois jogue fora, você não precisa entender suas costuras.

Sou editor do Colunas Tortas e administrador da fanpage do site, o que me coloca à frente de diversos dados de acesso diariamente. É a partir desses dados que eu consigo entender qual postagem foi bem sucedida, qual artigo foi bem recebido ou o que eu preciso melhorar, como se vê, há todo um leque de informações que me permite entender a dinâmica do site e da fanpage (e, inclusive, sua relação simbiótica).

Por que estou descrevendo isso logo no primeiro parágrafo? Qual o sentido? É pra comentar isso: diversas vezes um artigo é publicado na fanpage e recebe, não sei, 100 compartilhamento e 100 likes, por exemplo. Quando vou ver o número de acesso, não chega aos 100. A conclusão é óbvia, as pessoas compartilham coisas no Facebook sem ler. Curtem e compartilham sem nem saber o conteúdo.

Eu poderia escrever um artigo nazista sobre Nietzsche e dar um belo título com uma linda imagem: as pessoas o compartilhariam achando que se trata de um ótimo insight libertador.

Mas isso é óbvio, já se sabe que o Facebook é uma vitrine do que gostamos de ser reconhecidos. O Facebook não é aquilo que gostaríamos ser, é aquilo que queremos parecer. Mas qual é a grande sacada de observar os dados da minha página? Entender que o público que justamente denuncia esta relação superficial é sua parte integrante.

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O que é essa denúncia da relação superficial dos indivíduos com o Facebook? É como as pessoas que denunciam gostam de ser reconhecidas. Elas gostam de ser vistas como arautos da sabedoria e da contemplação filosófica. É por isso que diversos sites que tratam com profundidade de grandes filósofos fazem um relativo sucesso no Facebook, tem taxa alta de engajamento e etc: eles se alimentam da vaidade dos usuários.

A verdade sobre o Facebook é que inclusive seus críticos estão dentro de suas regras. Ao contrário da própria afirmação da moral nietzscheana de viver a vida com peito aberto, positivamente, a rede social é um grande gerador de gente fraca, que vive a partir do outro.

No caso, os próprios leitores de Nietzsche nas redes sociais – que fique claro, sei que existem de fato leitores de Nietzsche, mas aqui, estou falando daqueles que justamente compartilham mas não leem – são parte da raiva nietzscheana ao mundo. É impossível ler Nietzsche e lidar com o mundo de maneira tão boba e superficial.


Sobre o autor

Vinícius Siqueira

Vinicius Siqueira é editor do site de cultura e filosofia Colunas Tortas.