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Nada falta ao desejo

Somos herdeiros de uma tradição platônica-cristã que constitui o desejo enquanto falta. Poucos foram os pensadores que conseguiram sair dessa estrutura de pensamento. Muito da psicologia foi se constituindo em cumplicidade com esse “buraco no ser” que vai dando tons à nossa maneira de existir. Na psicanálise a falta é ponto central, sua concepção de desejo é radicalmente platônica, no limite, sem a falta, sem o buraco no ser, é impossível psicanalisar. Ponto capital também da crítica de Deleuze e Guattari a todo empreendimento psicanalítico.

Acontece que esse foi um modo pelo qual o pensamento dominante foi constituindo o desejo, não necessariamente se trata da sua natureza, embora nunca faltarão gurus e demais padres a querer nos fazer passar pela lógica da falta. Do ponto de vista revolucionário a problemática é gigantesca, pois o desejo enquanto falta é extremamente poderoso para favorecer a manutenção, o controle, a submissão, a disciplinação e a docilização dos corpos. Ainda, há toda uma relação de poder-saber que se alimenta da falta no desejo, o que foi imprescindível para o nascimento da “alma moderna” como nos apresenta Foucault, ao longo de várias de suas obras, através da edificação de saberes que se sustentam sobre conceitos como subjetividade, consciência, psique, personalidade etc., que atuam investindo sobre os corpos.

No desejo enquanto falta toda uma economia de afeto baseada em formas sutis e disfarçadas de autoritarismos alimenta muito das nossas relações afetivas. No limite, regimes de sensibilidades sustentados por uma pedagogia autoritária do desejo são apreendidos desde crianças.

Michel Onfray em sua obra A potência de existir trata com muita propriedade por que os filósofos optaram pelo desejo enquanto falta e carência. São muitos poucos, na história da filosofia, os que romperam com essa tradição – e esses poucos quase sempre passam silenciados nos cursos acadêmicos, pois em geral são filósofos que incomodam demais as relações de poder, pois não se trata apenas de uma questão psicológica, o céu ocidental se alimenta da falta: a política, o capitalismo, a religião e a moral. Em suma, todo poder necessita da falta para se efetivar, onde há desejo enquanto criação e produção, portanto, onde há potência de vida, o poder não cola.

Onfray nos explica que a tradição filosófica tomou o caminho do desejo enquanto falta porque acreditava em mundos transcendentes, outros mundos acima do real. Muito disso influenciado pelo pensamento religioso. Entretanto, o pensamento religioso é herdeiro da filosofia, sobretudo de Platão, que representa um marco do desejo enquanto falta, portanto, de um mundo ideal (o mundo das ideias), de uma história de fantasmas da qual nunca deixamos de desenvolver e criar outros transcendentes, realidades e paraísos, buscas por significantes e mundos de essências elegíveis em critérios de verdade – a lista é inesgotável!

As elegias à falta e a carência nunca deixaram de ser entoadas na constituição subjetiva do homem ocidental, a psicologia está repleta dessa tradição.

Falar em desejo não se trata apenas de tomá-lo como objeto de reflexão do pensamento. Falar em desejo é falar de nós, da vida, do corpo que somos, sobretudo, das maneiras e modos como vamos nos implicando, posicionando e se relacionando conosco, com as coisas, com o mundo e com os outros. O desejo não aprisiona, ele liberta; ele não nos remete à carência, ele cria vida em nós, se isso não acontece é porque somos por demais herdeiros de toda uma cultura de pensamento reativa e impotente, retirando as forças ativas do homem desde o berço, tornando o corpo um organismo que se presta a funções das quais não possibilitam a passagem das intensidades. Somos desejo, somos máquinas desejantes em produção incessante.

Máquinas desejantes, como disse Deleuze & Guattari, “Não em sentido metafórico” – é importante ressaltar. Sermos máquinas desejantes implica em dizer que há fluxos por toda parte, movimento incessante de moléculas se encontrando, acoplando, associando e formando corpos, organismos e tudo o mais. Máquinas menores, máquinas maiores mas sempre em movimento, sempre produção incessante que, antes de tudo, antes do significante, do significado, do verbo, do sentido é uma produção sem lógica, sem nexo e sem finalidade. É depois, a partir da captura pela máquina linguagem, pela máquina gramatical, máquina pedagógica e outras, por exemplo, que as máquinas vão formando máquinas binárias, máquinas ditadoras, máquinas moralistas, etc.

A compreensão pode ser um pouco complexa para o leitor não familiarizado com os pensadores da potência, somos por demais acoplados a uma máquina de pensamento movida por ideias, lógicas e sentidos. No entanto, vale muito a insistência em percorrer essas margens, pois a vida é radicalmente outra quando rompemos com a lógica dominante da falta.

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Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.