Filosofia Sociopolíticos

Leia Marx e os marxistas, depois leia Foucault

Escrito por Vinícius Siqueira

“Cito Marx sem dizê-lo, sem colocar aspas, e como eles não são capazes de reconhecer os textos de Marx, passo por ser aquele que não cita Marx”.

Cito Marx sem dizê-lo, sem colocar aspas, e como eles não são capazes de reconhecer os textos de Marx, passo por ser aquele que não cita Marx. Será que um físico, quando faz física, experimenta a necessidade de citar Newton ou Einstein? Ele os utiliza, mas não tem necessidade de aspas, de nota de pé de página ou de aprovação elogiosa que prove a que ponto ele é fiel ao pensamento do Mestre. E como os demais físicos sabem o que fez Einstein, o que ele inventou e demonstrou, o reconhecem imediatamente. É impossível fazer história atualmente sem utilizar uma sequência infindável de conceitos ligados direta ou indiretamente ao pensamento de Marx e sem se colocar num horizonte descrito e definido por Marx. Em última análise poder-se-ia perguntar que diferença poderia haver entre ser marxista e ser historiador [Foucault, Resumo dos cursos do Collège de France]

Você pode não gostar, mas vai precisar ler autores marxistas alguma vez.

Não se trata de uma questão de gosto, mas Marx atravessa toda a ciência humana. Foucault é certeiro em dizer que não cita o autor alemão por não haver necessidade, afinal, você não cita aquilo que está implícito na teoria.

Mas qual é a graça disso? Você só entenderá o que está implícito na leitura incessante e interminável. Não há escapatória. É só assim que você entende o caminho percorrido por Foucault para conceituar o poder como uma relação, que passa pelos aparelhos estatais de Althusser e pela noção estrutural de Marx n’O Capital.

A era digital é uma mão na roda, neste sentido, pois você pode encontrar diversos livros de grande autores do marxismo aqui. Veja a importância de ler autores marxistas, mesmo se você tem um pé em autores críticos ao marxismo.

Poder em Foucault

Esqueça sua característica negativa,

Me parece que a noção de repressão é totalmente inadequada para dar contra do que existe justamente do produtor no poder. Quando se define os efeitos de poder para repressão, tem-se uma concepção puramente jurídica deste mesmo poder; identifica-se poder a uma lei que diz não. O fundamental seria a força de proibição. Ora, creio ser esta uma noção negativa, estreita e esquelética do poder que curiosamente todo mundo aceitou [Foucault, Vontade e Poder]

É claro que a característica negativa, repressiva, existe. O poder também é negativo, também é repressão, no entanto, acima de tudo, ele é positivo, marca o corpo e incita ações.

Ao contrário da visão humanista do primeiro Marx, o poder não é aquilo que barra a liberdade do homem, que impede sua emancipação. O poder é aquilo que inclusive lhe marca de maneira que seu corpo pede pela liberdade, isso porque a liberdade não é um dado da natureza.

As disciplinas do corpo não anulam uma liberdade, mas moldam um corpo para um caminho. Este caminho é aprisionador, mas não é o negativo da possibilidade real de ação dos sujeitos. De novo: não há essência livre.

Os aparelhos

A visão de poder em Foucault acrescenta conteúdo à noção de aparelhos estatais de Althusser.

Segundo o autor,

O Estado é uma “máquina” de repressão que ,permite às classes dominantes (no século XIX à classe burguesa e à “classe” dos proprietários de terras) assegurar a sua dominação sobre a classe operária para a submeter ao processo de extorsão da mais-valia (quer dizer, à exploração capitalista) [Althusser, Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado].

O ponto é: o Estado barra. Ele não permite. A teoria dos aparelhos estatais não está errada, de fato a polícia barra, o judiciário barra e etc, mas faltava a explicação da ação, da positividade do poder. A noção de aparelhos ideológicos não explicam perfeitamente isso, porque os próprios aparelhos repressivos marcam o corpo e inscrevem positividades nele.

A situação da academia na época em que Foucault definiu sua analítica do poder era essa.

A tentativa de Althusser era dar nova vida ao Marx d’O Capital, esquecido pelos existencialistas e humanistas. Desta forma, torna-se obrigatório ler O Capital, também.


Sobre o autor

Vinícius Siqueira

Vinicius Siqueira é editor do site de cultura e filosofia Colunas Tortas.