Pensamentos

Fragmentos

Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra
Fragmentos

Nossos encontros deixam residuais de desconfortos, incômodos, amores e desamores que não conseguiram se expressar, contradições, disparates, nossas falhas e nossos acertos, caosmose afetiva… Todo vivido não se dá a demarcações, ele se esparrama junto à matéria do mundo sempre presente – mas também insinuante à memória. Eis que o desejo irrompe e acolhe essa matéria sem o compromisso da gramática, sem pontos de origem e fim, e forja palavras sem destino textual, daí nascem os FRAGMENTOS, e por vezes eles podem nos surpreender.

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DESISTÊNCIA – Sensações criminosas me atingem quando acordo em meio ao cheiro de suor quente numa noite insone pensando naqueles mundos deslumbrantes que escorriam em mim a velocidades maníacas enquanto sob a umidade generosa da sua língua e daquela noite cuja neblina emudecia os céus onde jazem os deuses de todas as civilizações e eras eu mesmo então transmutado em deus me via caminhando à sepultura com um riso de Monalisa nos lábios porque do fundo do meu próprio abismo de onde assisto com olhos pálidos os escombros dos quais acabei por me reduzir durante esses longos anos monótonos de envelhecimento uma dor de você ainda brilha em mim como uma estrela de cinco pontas que insiste em resistir na minha desistência.


ISTO É UM MANIFESTO POLÍTICO – Enquanto direita e esquerda gritam espalhafatosamente, descansemo-nos um no olhar do outro sem precisar dizer nada e um paraíso de sensações nos protegerá. Revolução? Que há de mais revolucionário, hoje, que tempo e silêncio escoados pelos corpos em meio a essa balbúrdia de acusações entre cúmplices? De todos os cenários políticos possíveis, o pior é o de nossas vidas ou sobre aquilo que estamos fazendo de nós. E continuamos iguais: nossa principal arma ainda é o ódio pelo qual erguemos ou defendemos ideias, ainda não polinizamos o campo social com as potências de amor. Manifestar-se? Só se for para falar de coisas que realmente importam: a indiferença do universo diante das nossas lamúrias, sobre como seria morrer à luz das estrelas, o quanto não mais precisamos de direções quando nos perdemos um no outro, o cheiro do café pela manhã misturado ao perfume dos teus cabelos esparramados na cama, tuas curvas, teus detalhes, teus pensamentos mais estranhos e horríveis, … há música, há vinho, há ventos de outono silvando pelas noites insones. Sabes que quando o olhar cola um no outro podemos assistir ao fim do mundo flanando por céus azuis? Pudera fosse já! Mas não te preocupes meu bem, chega e não tenha pressa, pois te direi um segredo, desde tempos imemoriais, o mundo, o mundo… o mundo sempre foi uma loucura e continuará sendo.


BELEZA ESTRÁBICA – Lembro-me da primeira experiência diante da beleza terrível. Foram olhos brilhantes e levemente desalinhados que tumultuaram minha vida com paisagens longínquas de mundos imemoriais. Contemplei aquele olhar com uma tenacidade sagrada e o tempo entrou em paralisia, era um labirinto do qual eu queria me perder, mas eu era jovem demais para lidar com pensamentos sem vocabulário e corri assustado da desconhecida de beleza estrábica enquanto gafanhotos piniquentos saltavam pela minha alma em pânico. Ainda hoje, ainda hoje se eu pudesse eu estaria ali suspenso naquele instante, o instante de eternidade, imóvel como um monge sentindo a vertigem da beleza trespassando o corpo com sensações cósmicas.


DEUS – Quanta vaidade e quanta presunção a nossa ao dizer que tudo tem um significado e as provações das quais passamos têm algum motivo em alguma ordem superior. Quanta arrogância de uma alma imaginar que o movimento dos astros e dos planetas e do universo vela, de algum modo, por nós. Onde está a humildade espiritual quando se acha que mistérios e desconhecidos estão por aí tecendo finalidades imaginadas por e para nós? Se há alguma humildade espiritual não seria a de não esperar por outras vidas e regozijar-se com a vida que temos tal como ela é? Nada a esperar de alguma Entidade Absoluta, nenhuma recompensa, nenhuma punição, nenhuma justiça, nenhuma vida pior ou melhor de acordo com o nosso histórico: quem assim tem tamanha fé na vida para não precisar de alguma entidade superior? O crime maior já está feito: procuramos milagres e consolos em entidades supremas e acimas de nós, e buscando sempre acima já não percebemos o próprio milagre que já é a vida. Pecadores, vejam, deus passeia pelos jardins nas asas de um beija-flor, sintam, pecadores, a força que movimenta os planetas e as estrelas e os ventos é a mesma que também nos faz levantar todos os dias!


LOLITA – Ninguém é mais o mesmo depois de ler um título aparentemente inocente como este. Cerca de dez anos depois releio em tradução bem melhor essa obra-prima e estou em queda, sublime queda. Essa obra tão mal compreendida e injustiçada poderia tranquilamente figurar no panteão mais perturbado e trágico – e belo! – da literatura ao lado de Dostoiévski, Hermann Hesse, Kafka e outros. Não, não se trata de uma obra de amor, de pornografia ou erotismo, também não é sobre pedofilia e suas moralizações, é sobre as n-furcações do desejo, as disputas lancinantes entre as forças da mente e dos afetos, a tragédia inocente que é viver. Como obra trágica, as entrelinhas estão recheadas de n-risos disparados através de Humbert Humbert e suas complexas teias de ironia e apurado intelecto e senso estético, H.H. o pedófilo? o maldito? o que ama desesperadamente? o lúcido rindo da potência da mente spinozana? o que abjeta mas também comove? Quem já leu “Crime e Castigo” e não foi capaz de julgar Raskólnikov certamente não conseguirá julgar H.H., e talvez seja essa a grandeza da arte: não nos deixar se tornar “monstros” iguais àqueles que poderiam ser acusados de “monstros” por um júri já tornado monstro. Responsabilizamos H.H, mas reconhecemo-nos feito da mesma matéria, somos seres errantes e falhos cada um a nossa maneira se esforçando para viver, somos todos criminosos e amantes singulares e já não nos resta um “pra que” odiar – o que nem sempre conseguimos enxergar enquanto se vive: precisamos de arte, das terríveis, para não se sufocar com o medo e o ódio exalados pela vida tornada sobrevivência e lucro.


OLHOS E SILÊNCIO – De-morar no olhar um do outro sob um céu de silêncio continua sendo um dos melhores lugares para se recolher quando tudo no mundo parece desmoronar.


O MELHOR COMBUSTÍVEL – O melhor combustível para se criar é estar encrencado com alguma paixão, seja ela boa ou ruim é o que menos importa, contanto que faça o pensamento saltar pela boca através de frases e versos. O amor não é pessoal, é uma força extraordinária, não é a pessoa em si mas os mundos extraordinários que desse encontro surgem em nós, de resto, toda essa cobertura de valores que se diz do amor ou de quando se perde o amor é lenga-lenga pra mais-valia do psicanalista.


GERAÇÃO MIMIMMI – “Essa geração mimimi não pode levar palmada, apanhei de cinta e não morri, pelo contrário, aprendi a ter caráter.” JURA? Você aprendeu foi é amar o poder e a repressão. Se bater funcionasse não estaria com uma visão tão estreita e triste assim.


Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.