Literatura

Fragmentos de uma paixão | Conto

Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra

Eu compunha, ou tentava compô-la, com os traços imperfeitos que tinha em minha mente, foi o que sobrara. Imagens surgem em meu pensamento. Os traços imperfeitos de seus lábios perfeitos se levantaram suavemente para sorrir. Me vem a sensação do tempo que parou enquanto eu captava o fio de sorriso que ela deixou escapar quando meus olhos atingiram os delas demoradamente, e estavam – aqueles lábios – levemente úmidos, seu rosto ruborizou e seus olhos brilharam no fundo de uma melancolia reservada apenas às mulheres que exalam uma vida que a gente quer conhecer.


Que tempos foram aqueles…

Eu acordava e pensava nela. No trabalho, eu pensava nela. Almoçava, pensando nela. Tomava banho e ela evaporava em meu pensamento. Ia passear com o cachorro para esquecê-la, mas lá estava ela novamente. Eu via beleza nos pardais que ciscavam pelas calhas das pequenas casas de telhado colonial. As borboletas adquiriam cores vibrantes e me atingiam com o encanto que antes não vira. E até mesmo a joaninha subindo lentamente pelas folhas orvalhadas de um flamboyant se tornou uma manchete no meu mundo.

Ela ocupava boa parte dos meus pensamentos fazendo do mundo feio com pessoas feias um mundo bonito com pessoas… nem tão bonitas assim.

O mundo, esse mesmo cheio de desconfiança e violência, e pessoas sempre ocupadas com seus egos tagarelantes movidos a dinheiro e status, o mundo que antes eu demorava muito para sentir que entrava nele, acordar, tomar café, colocar uma roupa, colocar um rosto apresentável, ir ao trabalho, os papeis empilhados na mesa aguardando um desfecho… todos esses dentes com que os dias me mastigavam se abriram formando um sorriso com que o dia me levantava da cama. E eu sabia…

Ela irradiava sua beleza sobre o mundo, transformando-o, o mundo no melhor dos mundos. Eu dormia umas 3 ou 4 horas mal dormidas por noite e acordava como um Zeus para encarar o mundo – … isso vai dar merda – eu pensava.

À noite saía para caminhar e as luzes amareladas de uma rua escura atraia mariposas, eu sempre achei mariposa uma versão diabólica das borboletas, mas eu via mariposas dançando e era bonito. A lua distante, as estrelas tímidas, o halo amarelo com mariposas dançantes, a neblina flutuante, os humanos em suas casas dormindo e suas máquinas de andar barulhentas também guardadas em suas casas. Sou uma criatura que se sente aconchegada nos braços da noite, quanto mais tarde mais cálido e suave o espírito solitário da atmosfera escura sopra em mim.

Eu caminhava lentamente com um coração que batia rápido de desejo, sobre minha cabeça um céu profundo e escuro completamente indiferente, e à minha volta o silêncio de uma noite em queda que só as almas perturbadas sabem como abraçá-la. Eu estava embriagado pela mulher que eu daria tudo para tê-la nos braços, e por mais que eu olhasse aquele imenso céu profundo e enigmático ele era indiferente e frio às ardências de minha alma sem crença, sem provedor, sem nenhuma prece a ser feita, apenas a vida que pulsa, um lapso no universo.

Logo meus pensamentos descarrilharam trazendo fragmentos daquele corpinho delicado e encantador. Na praça não há ninguém, o relógio passa da meia-noite, me sento no banco solitário, o mundo dorme e eu existo – pensando nela. Um cigarro me faria esquecê-la. Acendo o cigarro e ainda penso nela, à primeira tragada projeto a fumaça e lá estava ela novamente, a segunda, e novamente ela surge com um rosto provocante.

Voltava pra casa com o pensamento preenchido por imagens do nosso último encontro, mas o pensamento é esburacado por natureza. O pensamento se esforçava como Sísifo para inventá-la, e cansa, cansa inventar a presença na ausência. O espírito é um bêbado que já não aguenta manter o próprio corpo em pé quando se trata de lidar com a ausência da matéria.

Eu compunha, ou tentava compô-la, com os traços imperfeitos que tinha em minha mente, foi o que sobrara. Imagens surgem em meu pensamento. Os traços imperfeitos de seus lábios perfeitos se levantaram suavemente para sorrir. Me vem a sensação do tempo que parou enquanto eu captava o fio de sorriso que ela deixou escapar quando meus olhos atingiram os delas demoradamente, e estavam – aqueles lábios – levemente úmidos, seu rosto ruborizou e seus olhos brilharam no fundo de uma melancolia reservada apenas às mulheres que exalam uma vida que a gente quer conhecer.

Ela ia entrando em meus pensamentos como as ondas vão adentrando cada vez mais a praia em uma noite de tempestade. Seus gestos e traços que eu trazia em memória me atingiam em cheio, os pensamentos escorriam, todos com a imagem dela.

Não havia nada que eu pudesse fazer para estancar os fragmentos que surgiam em mim. Fragmentos da boca, dos olhos, das sobrancelhas, do nariz, dos pés, da cintura, das mãos, da bunda, das pernas, seu jeito de andar e falar e ser. Voltava para casa, me deitava, me virava, me revirava, com jeito ou mal jeito, nada, ela era a senhora dos meus pensamentos. Acho que eu estava me apaixonando. E eu sabia que estava terrivelmente encrencado.


Imagem: fotografia do ensaio A Woman´s Realm de Laura Stevens


Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.