Filosofia

Economia sem alegria*

economia sem alegria
Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra

…nunca antes uma sociedade se empenhou tanto na felicidade enquanto as vidas individuais se chafurdam cada vez mais com os ideais da “economia sem alegria” cujos índices de lucro não param de crescer.

Este é o capitalismo que deu certo: vitrines, lojas, praças, shoppings, ruas metropolitanas… toda superfície é climatizada, constantemente, com ares de felicidade e bem-estar, enquanto o interior do homem é culpabilizado, endividado e angustiado. Este cambaleia com seu mal-estar à espera, sempre à espera de uma vida mais intensa e com mais proximidade emocional e afetiva enquanto as decepções se acumulam. Até aqueles que nos parecem próximos aprendem rápido a gramática de dever à felicidade para nos cobrar tal como a sociedade, projeção? Tanto mais o culto à felicidade maior é a queda, enjoo e impaciência contrastam nossos afetos apagados com o brilhantismo das imagens ofertadas.

Nos encontros, esperamos uma pessoa interessante, que nos faça rir de imediato e nos tire de nossas vidinhas enfadonhas, e nós mesmos? Contagiamos o outro de alegria? Estamos aprendendo demais a nos relacionar com aquilo que menos entende de relações, as novelas! A esses eu recomendo (se conseguirem aguentar mais que 10min.) um belíssimo filme, Las Acacias (2011), do diretor argentino Pablo Giorgelli. Não existe nenhum tipo de relação que se constrói sem esforço, paciência e boas doses de constrangimento, o filme mostra isso de maneira extrema através do encontro de um caminhoneiro com uma mulher (e sua criança de colo) durante uma carona.

Isso vale, também, na clínica: em tempos de rarefação dos relacionamentos os cuidados com o vínculo, base de toda relação, merecem atenção. Cada vez mais o “cliente” (esse termo horrível que parte da psicologia usa!) – que agora diz “eu estou pagando” – acha que vai chegar, comprar um estado afetivo e sair de lá outra pessoa – quase mágica. Na web, o número de textos-imagens como pílulas à autoestima, a necessidade de consumir frases sempre otimistas, guias pra criar um mundinho ideal onde as pessoas negativas não façam parte, as mais novas façanhas do café para a inteligência (“pessoas inteligentes consomem mais café”, salta o título!), o momento certo para se chegar ou sair de um relacionamento… esse infinito mercado com ofertas diversificadas às almas perdidas e suscetíveis a embarcar para qualquer direção que pareça levar à construção de uma vida mais harmônica deixa evidente o fundo de infelicidade da “economia que deu certo”. Essa economia-mundo se incrustou em nós de tal forma que já não conseguimos pensar outras possibilidades de vida e reduzimos tudo a capitalismo e comunismo (o lado do mal?).

Em uma sociedade que está profundamente entristecida e enfastiada é bem lógico vender tanto apelo à felicidade, ao bem-estar e a sensações imediatas e intensas, mas é possível piorar: por mais que o consumo faça suas pirotecnias, com suas luzes e efeitos e promessas de conforto, os olhos cansados dos  homens denunciam seus corpos e mentes apagados. Só insistimos, desesperadamente, em dizer algo de nós quando isso nos escapa, daí a necessidade de repetir os clichês da felicidade. Diante daquilo que não temos gritamos, Eu sou feliz!, grito de guerra na economia sem alegria. Dizer que se está triste é uma afronta, pois faz crer que é um fracasso individual, mas pode dizer que se está com depressão, pânico, fobia social… Me diz o que é que EU tenho e me dá um remédio pra curar!, cuidado de si terceirizado, é assim que somos doutrinados na economia que deu certo, em outras palavras, você é o único culpado pelo seu fracasso. Se pudessem colocar uma plaquinha, Faz-se diagnóstico na hora, os consultórios psicológicos formariam filas de espera.

Todos fazem questão de dizer que estão felizes, mesmo na clínica o sujeito se sente incomodado de dizer que está triste, mas tudo denuncia a nossa profunda insatisfação nesse fantástico mundo capitalista – que deu certo: as decepções e insatisfações se acumulam, a impaciência, a inquietude, a incapacidade de apreciar uma obra que exige tempo, o zaping constante no controle remoto, a tagarelice para esconder nossa falta de assunto e quem sabe nos posar como interessantes, os espectros sombrios e desanimadores que assolam o corpo e a alma… insisto, nunca antes uma sociedade se empenhou tanto na felicidade enquanto as vidas individuais se chafurdam cada vez mais com os ideais da “economia sem alegria” cujos índices de lucro não param de crescer. Como é possível dizer que esse modo econômico de gerir e julgar a vida deu certo quando os nossos afetos são assolados por uma sofreguidão profunda? Se a alegria fosse critério para o PIB tomaríamos ciência, pelas telas brilhantes que ocupam os lugares centrais de nossas casas, que haveria somente dois grupos de países, os pobres e os miseráveis.

Como não ver que os desapontamentos ocasionados pelo consumo são bem pequenos comparados aos que atormentam o homem no trabalho? A árvore não deve esconder a floresta: “a economia sem alegria”, é o universo profissional que a encarna essencialmente. LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal.


* Termo de Lipovetsky, G. 

Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.