Filosofia

Criar para si um Corpo sem Órgãos ou sobre um Corpo Intensivo

Corpo sem órgãos
Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra

Dado o cansaço de nossas vidas, o nosso pensamento-sentado¹, a nossa melancolia reativa, dada a tristeza que circunda o nosso mundo cujos pequenos prazeres vêm à conta-gotas, a partir do consumo e descargas de prazer, onde tudo parece recair – e se conformar – nas múltiplas faces fálicas de um desejo castrado (ver Nada falta ao desejo), pode ser que o que esse texto se propõe pareça coisa de esquizofrênico, mas diremos, trata-se de algo muito concreto. Pode ser que seja algo que pareça distante, ora, falaremos de algo que está em cada um de nós na medida que o processo desejante consiga se colocar fora das referências dadas por instâncias exteriores, na medida que não nos deixamos ser produzidos enquanto carentes que clamam por um prazer capaz de preencher uma falta infinita. É um programa, e dificílimo apesar do título sugestivo, para um modo mais intensivo de se relacionar com o corpo e com a vida. Como precaução, queremos dizer que a intensidade que circula o corpo do qual tentaremos dizer não se confunde com aquela apropriada pelo capitalismo e significada pelo consumo enquanto condição de experimentação de vida que não se desperdiça, nada de mantras como viva intensamente cada minuto de sua vida porque ela é única, na contramão diremos, desperdice a vida (ver Tempo não é dinheiro).

Esse programa ecoa de Artaud que, literalmente, a partir de um programa de rádio gritou por um corpo que não aguenta mais camisa de força, um corpo que é pregado na cruz e atravessa os milênios sob o julgamento de Deus e, posteriormente de uma consciência interiorizada com culpa e falta (ver Falta e culpa na sociedade do espetáculo), um corpo pregado nos significantes da interpretação e da explicação. Foi ele quem primeiro falou em Corpo sem Órgãos, termo que Deleuze & Guattari pegaram e articularam com Spinoza e Nietzsche. A gente sabe que não se pode andar nu por aí sem um Eu, mas esse programa se propõe a acabar com os juízos de Deus, que são também, em parte, os do Eu. A bem da verdade é coisa de esquizofrênico sim, mas não aquele que tem sujeito e predicado dados pela psiquiatria, mas um outro jeito esquizo de se afetar e ser afetado com este mundo cuja maior saúde é uma vida sem intensidade, a neurose.

Quando ainda não sabemos o que pode um corpo que não se duvide do que certos versos, um certo olhar, um certo jeito de falar e tocar e se relacionar, que não se duvide do que certas frases, certas paisagens, uma cena de Godard sem palavras ou uma canção que cantávamos quando éramos jovens e queríamos mudar o mundo e que agora vem à lembrança untada ao barulho da chuva numa noite fria e leitosa cuja lentidão da fumaça do cigarro junta cacos e desenha um rosto de saudade no teto do nosso quarto solitário e aí já não somos mais os mesmos, que não se duvide que haja alguma faísca capaz de incendiar um corpo que está além das dimensões da química e da biologia e fazê-lo produzir novamente aquilo que lhe foi roubado, a intensidade. Um céu estrelado te toma e te obriga a escrever um verso que dá nos nervos, uma troca de olhos e conversa dá num encontro entre dois mundos com forças para inventar o mundo, do seu silêncio solitário você observa a solidão coletiva, apressada e cinzenta de uma grande metrópole e o pensamento vem subindo pelo estômago pedindo passagem, … faíscas capazes de cintilar um corpo intensivo estão por toda parte, mas nem tudo funciona, encontre aquilo que ama, diria Nietzsche, e quando encontrar não volte atrás por nada. Quando estamos experimentando um corpo intensivo é inconfundível em nós os sopros de uma alegria criadora, é por isso que esse texto vai se meter a falar de um corpo que parece ridículo para os que já se deixaram se embrulhar em seus paletós com gravatas vermelhas e pastas pretas e cinzas.

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Como produzir para si um corpo sem órgãos é o título do capítulo (ou platô) que abre o volume 3 de Mil Platôs, obra de Deleuze & Guattari. De início, os autores dizem que não se chega a um Corpo sem Órgãos (a partir daqui abreviaremos como CsO), não se trata de um conceito nem uma noção, mas antes de tudo uma prática ou um conjunto de práticas. O nome é estranho, ora, um corpo sem os órgãos não seria mais um corpo platônico, mais do mesmo corpo descarnado? Veremos que esse corpo não é platônico apesar do nome sugestivo. Por minha conta, o nome não me agrada, prefiro chamá-lo apenas de corpo intensivo, mas nomenclatura à parte, o importante é compreender como isso funciona. Há muito de intensivo e voos esquizos de Deleuze & Guattari na escrita do CsO, vamos tentar desdobrar um pouco da “filosofia ou ética prática” condensada no exotismo desse termo.

Dotaram-nos de um corpo organizado, seja como organismo com suas funções biológicas e químicas dadas pelas ciências, seja como instrumento de uma consciência com sujeito centralizado e organizado por um Eu capaz de deliberar sobre essa matéria, tudo isso muito derivado de uma estrutura religiosa do pensamento que fez o corpo submisso à alma. Um corpo organizado é um corpo onde o pensamento e as intensidades não fluem, não há meios de passagens ou eles estão entupidos, vamos entupindo os meios de circulação das intensidades por significações, e na medida que vamos investindo cada vez mais nas significações vamos alimentando necessidades de interpretações para poder acontecer, introjetamos em nós um modo de dever, um modo de vigiar e punir.

Mas não sabemos o que pode um corpo…

O fato é que ninguém determinou, até agora, o que pode o corpo (…) a experiência a ninguém ensinou, até agora, o que o corpo – exclusivamente pelas leis da natureza enquanto consideradas apenas corporalmente, sem que seja determinado pela mente – pode ou não pode fazer” (SPINOZA, EIII, P2, escólio)

Apesar de Spinoza ter colocado em questão uma dimensão de corpo cinética e dinâmica a partir da capacidade de afetar e ser afetado já no século XVII, a sua Ética não teve espaço em seu tempo, o corpo acabara de iniciar o seu sono profundo no idealismo cristão e perduraria com o idealismo alemão. Foi Nietzsche, com sua filosofia a golpes de martelo, quem finalmente despertou o corpo dessas catacumbas. “Eu sou todo corpo e nada além disso; e alma é somente uma palavra para alguma coisa no corpo”. – diz Zaratustra aos desprezadores do corpo.

Um campo de imanência para um corpo intensivo

Finalmente, o grande livro sobre o CsO não seria a Ética?
DELEUZE & GUATTARI, Mil Platôs, Vol.3

Vejamos que há muito mais por trás desse nome que parece etéreo. O CsO depende de um plano de imanência, derivado, sobretudo, das leituras que Deleuze faz da Ética de Spinoza que chama de Natureza (ou Deus) uma substância que é causa de si e em si e de todas as coisas existentes. Essa Natureza se expressa em infinitos atributos e infinitos modos, nesse sentido, mente e corpo são um só enquanto modificações dessa mesma substância, assim como todos os corpos e tudo que existe são variações dessa única substância.

O plano de imanência seria uma dimensão onde se dá todo o processo de composição a partir do que somos e do que temos junto dos encontros com outros corpos, diferente do plano transcendental que é um plano de organização a partir de critérios teológicos que estão fora da vida e depende das deliberações de um sujeito cognoscente. Assim, CsO nos remete intrinsecamente a um corpo que se constitui enquanto capacidade de afetar e ser afetado, é nesse esteio que vem a famosa provocação spinozista de que nós não sabemos o que pode um corpo.

Espinosa propõe aos filósofos um novo modelo: o corpo. Propõe instituir o corpo como modelo: ‘Não sabemos o que pode o corpo…’. Esta declaração de ignorância é uma provocação: falamos da consciência e de seus decretos, da vontade e de seus efeitos, dos mil meios de mover o corpo, de dominar o corpo e as paixões. DELEUZE, Espinosa e a Filosofia Prática

Estamos falando de uma filosofia prática, e uma filosofia prática que implica pensar em como se constrói um plano de imanência (Espinosa e a filosofia prática) e como se constrói um corpo intensivo em um plano de imanência (Como construir para si um corpo sem órgãos).

Como um programa, o CsO depende de composições que se faz lá onde “Não há mais formas, mas apenas relações de velocidade entre partículas ínfimas de uma matéria não formada. Não há mais sujeito, mas apenas estados afetivos individuantes da força anônima.” (DELEUZE, Espinosa e a Filosofia Prática). Não se trata de declarar guerra aos órgãos (importante), mas aos “juízos de Deus” ou às organizações de fora que separam o corpo daquilo que ele pode, pois na medida que ele é um mero conjunto de funções biológicas e químicas ele se separa das vibrações que, por exemplo, poderiam ressoar a partir de uma poesia ou de uma dança e a partir daí criar composições das quais ainda não sabemos, implicando em novas maneiras de agir, pensar e sentir.

Os átomos de um corpo formam uma multidão, há uma ritmicamente e uma vibração que ao encontro dos átomos de outros corpos podem se compor de modo que passam a vibrar em uma ritmicidade mais intensa, os apaixonados inventam mundos onde nada falta – eu sei, apaixonar-se em solo edipiano tem se tornado cafona. 

Com o CsO buscamos ir além de um sujeito dotado de uma história pessoal acostumado a esconder aquilo que lhe é mais próprio a partir dos enredos com o significante para ir em busca de explorar e criar novas maneiras de fazer as coisas através dos encontros com outros corpos, portanto, o contato não só é necessário como é afirmado. É se colocando em experimentação que criamos formas singulares de espaço e tempo, de subjetivação, de aberturas, é nas experimentações vitais que nos colocamos em fuga das identidades. É com o corpo que experimentamos e inventamos um modo de existir, e quanto menos isso acontece mais arrastamos uma vida cansada porque carregada de julgamentos externos.

Essa prática, no fundo, nos coloca frente a difícil tarefa de, neste mundo e nesta vida (ver Acreditar neste mundo e nesta vida), repleta de forças tristes que produzem impotência, criar para si um modo de viver alegre, em outras palavras, transformar a impotência e a tristeza em potência de agir e pensar para então aumentar a alegria de viver.

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O corpo castrado é cansado

Não negamos a dimensão orgânica e as organizações do corpo, mas não nos reduzimos a isso. O corpo spinozista é mais amplo e se circunscreve em termos de aumento ou diminuição da potência de agir. Pretendemos ir mais longe que o conhecimento do corpo humano dado pelas ciências químicas e biológicas. Buscamos o CsO, mas quando se chega nele já nos desfazemos porque ele nunca se fixa ou se organiza, pelo contrário, evidencia um corpo complexo e dinâmico a partir de suas composições que se dão com outros corpos, sejam as pessoas, os animais, as folhas, uma música, um livro, os trajetos, restos e lascas de todos os tipos, enfim, estamos em direção a um corpo que quer ser ventilado por energia, por intensidades, por tesão de existir, alegria – um contracorpo àquele que vive pregado, ainda, como Cristo na cruz, e tem sua energia sugada pelas indústrias da mais-valia, dos ideais e dos transcendentes.

O corpo da civilização moderna foi colonizado por Édipo e devastado de sua matéria intensiva.
Esse modo de se relacionar envolve deslocamentos quanto às formas e sujeições, deslocamentos que podem ser em relação à postura, à percepção, aos modos de sentir, agir, pensar, às atitudes e hábitos costumeiros, etc. Uma certa abertura no sentido de estabelecer conexões entre os corpos não cabe em receita-teórica, mas sabemos que o CsO só se dá no intensivo dos encontros, relação nada fácil quando toda pedagógica ocidental nos direcionou às formas, às formatações, à potencialização de um corpo enquanto instrumento de um Eu que aparece como Sujeito que quer cada vez mais ser soberano e individual. Nesse sentido, o CsO é uma recusa a todo tipo de interpretação e explicação, fazendo fugir as identidades que colam em nós definindo aquilo que querem que sejamos e nos separando daquilo que podemos.

Historicamente nós somos educados a investir em modos de vidas organizados pela sociedade. Não queremos negar que somos seres sociais, mas o interesse de investir nas formas organizativas do homem é para separá-lo de sua potência, como se ele fosse, naturalmente, uma besta destruidora cujas forças precisam ser castradas. E assim fabricamos, de geração em geração, vidas cada vez menos intensas, e tanto menos intensas maior a facilidade de organizá-las e direcioná-las para formas de vidas consideradas ideais, é aí que entram os padres de todos os tipos para impedir a produção do CsO.

Farão de tudo para impedir a produção de um CsO, a experiência pode falhar, ser aterrorizante e até mesmo conduzir à morte, dizem Deleuze & Guattari. O corpo intensivo incomoda pois é também espaço político capaz de ressoar grandes incômodos, recai sobre ele todo tipo de organização. Artaud levava choques, era aprisionado em leitos e camisas de força, o corpo do psicótico precisa ser capturado pelas polícias castradoras, o desejo por si só é revolucionário, daí tanto investimento em castração. Nesse sentido, não devemos esquecer da prudência necessária, pois estamos lidando com intensidades em meio a uma sociedade que busca direcionar o máximo possível dessa energia para extração de mais-valia. Um pequeno prazer de vez em quando é aceitável, mas não é nada aceitável para a sociedade um corpo alegre, afinal, é difícil estabelecer dívidas quando nada falta.

Na produção de um CsO tangenciamos perigos. Pode-se produzir intensidades das quais não estamos ainda preparados, e incapazes de sustentá-las podemos gerar perturbações que irão atrair algum tipo de escolta policial-familiar-social. Há também o risco de acreditar que criamos um CsO quando na verdade criamos um corpo vazio que passa a depender de algo para produzir uma intensidade, a maneira de gozar ocidental é, em grande parte, organizada pelo vazio, o próprio capitalismo funciona assim, ele esvazia o corpo mas fornece o objeto que o preenche – dívida e crédito. Assim, pode-se fazer sexo apenas para suportar a vida ou passar de consumo em consumo para ganhar alguma dose de prazer, pode-se até mesmo suportar amores contratuais por uma vida inteira, mas o desejo não pode ser enganado e o afeto aqui é fingido.

Uma questão de vida ou de morte

É agradável pensar a intensidade como se ela fosse um sopro da natureza spinozana em nós aumentando a nossa potência de agir caso tenhamos um corpo que a sustente, se não pode dar errado. Afirmamos os encontros ainda que não saibamos de antemão como vai ser, intensidades não se combinam com o etéreo, modos de viver não se compõem a partir de estados que não querem ser “contagiados” com vísceras, carne, sangue, ossos, constrangimentos, nonsenses e fluxos de todos os tipos. Toda essa matéria, degradada pelo corpo pensado na tradição religiosa do pensamento, separou as convulsões intensivas de um corpo.

O que pode vibrar, dinamizar o corpo, desorganizá-lo de seu organismo, de suas representações para que ele possa produzir intensidades? Uma bailarina, uma escrita que já se perdeu do sujeito, um masoquista, um experimentador de drogas, um velho caminhando com seu cão e degustando a cidade ao redor de espanta, um apaixonado cujo corpo já se modificou pelos olhos da amada e passa a jorrar poesia pela boca, quem nunca experimentou um corpo intensivo desses que faz toda lamúria cessar em nós frente a uma vida que se cria?

O CsO nos abre a uma dimensão cujos encontros de corpos emitem vibrações uns aos outros, dessas vibrações podem ressoar afetos que aumentam nossa potência de agir, experimentamos alegria, alegria capaz de nos fazer endoidecer – por que não? (ver Sobre a alegria). Não há nada de ficção nesse corpo onde somente intensidades – e não fantasmas – atravessam e circulam, e temos uma filosofia prática para ajudar nessas experimentações, a Ética de Spinoza e o CsO de que nos falam Deleuze & Guattari.

Trata-se de encontrar nossos próprios meios para ascender à produção de um CsO, e isso só se dá com experimentação, e toda experimentação está sujeita a riscos e perigos, no entanto, o contrário disso é o conforto de um corpo costurado com os atributos de uma vida desejável e invejável a olhos que não os nossos, aos olhos de juízos outros, em outras palavras, aos olhos da morte, pois trata-se, para retomar Deleuze & Guattari, de uma questão de vida ou de morte.

Por que não caminhar com a cabeça, cantar com o sinus, ver com a pele, respirar com o ventre, Coisa simples, Entidade, Corpo pleno, Viagem imóvel, Anorexia, Visão cutânea, Yoga, Krishna, Love, Experimentação. Onde a psicanálise diz: Pare, reencontre o seu eu, seria preciso dizer: vamos mais longe, não encontramos ainda nosso CsO, não desfizemos ainda suficientemente nosso eu. Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação. Encontre seu corpo sem órgãos, saiba fazê-lo, é uma questão de vida ou de morte, de juventude e de velhice, de tristeza e de alegria. É aí que tudo se decide. DELEUZE & GUATTARI, Mil Platôs, Vol. 3

 


1. Termo criado por Norval Baitello Jr., desenvolvido no livro “O pensamento sentado – sobre glúteos, cadeiras e imagens”

Imagem: arte digital de James Eads

Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.