Sociopolíticos

As tiranias da saúde, do bem-estar e da boa forma

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Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra
As tiranias da saúde, do bem-estar e da boa forma fazem do cotidiano um espaço de perigo perpétuo. A vigilância com a saúde conecta felicidade, também, com grãos e cereais. É necessário dispor de vitaminas e minerais, horários de refeições, cuidar da pele com cremes para o dia e para a noite de oito em oito horas, apps de gestão do sono e ingestão de água, ingerir a cápsula gelatinosa de óleo de peixe na ceia, fazer a assepsia das mãos e das partes íntimas com produtos específicos, aprender técnicas de respiração, cuidar do humor com cores e aromas, academia, terapias com pedras quentes, com terapeutas, coaching, etc. A gestão da vida saudável esvazia o tempo da criação de si, cada fragmento de atenção das subjetividades é disputado e engendrado no caldo financeiro global.

O corpo é o primeiro território a ser colonizado, seja pela igreja, pelo estado ou pelo capital. As relações de poder e saber capitalizam-os servindo-se deles. Para além das múltiplas significações, a política se inscreve no corpo. Os corpos neuróticos e histéricos de outrora são os corpos paranoicos e esgotados de uma política desacreditada. A impotência de um diz da impotência do outro.

Cada vez mais desencarnado da experiência singular de viver, o corpo que se relaciona com os outros corpos, que sente e é sentido, toca e é tocado, olha e é olhado, o corpo que se é e que se habita, que já era objeto de disciplinarização, vai sendo significado, submetido, utilizado, estratificado, aperfeiçoado e convocado pela biopolítica para sustentar e manter a potência econômica da vida.

Já não mais apenas visado cientificamente em espaços mais ou menos delimitados – escolas, hospitais, famílias, prisões, etc. –, as malhas invisíveis e sedutoras do poder capitalizam o corpo em todos os seus aspectos – social, biológico, espiritual, afetivo, íntimo, subjetivo… Nesse contexto, uma das capturas mais rentáveis sobre o corpo atual, faz-se através dos apelos de uma saúde¹ investida de performance e desempenho, quase sempre associada também aos apelos do bem-estar e da boa forma.

De dentro, o indivíduo é incitado aos paradigmas infinitos da saúde performática e aterrorizado pelo dever à felicidade, à disposição de viver e ao aproveitamento do instante, afastando-se das possibilidades de tristeza, preguiça e ociosidade. Apesar das inúmeras evidências que categorizam os corpos em produtivos e improdutivos, a maioria dos indivíduos não percebe o quanto a vida vai sendo investida pela axiomática do capital financeiro a partir da relação desejo-corpo.

O estado-capital internalizado fez de cada um o próprio panóptico, o olhar de vigia de uns com os outros também prevê as próprias penitências e culpas. A consciência em guerra com o corpo incapaz de cumprir o dever ao gozo neoliberal se preenche com perturbações que diminuem o tesão de viver. Já dissemos por aqui que o nosso maior inimigo somos nós!

As tecnologias de gestão da vida não param de se atualizar dentro de um paradigma que, apesar de tirânico, soa como um conjunto de elementos e técnicas dos quais os indivíduos devem se servir para empreender a sua própria saúde no sentido de manter-se economicamente ativo. O culto ao desempenho do corpo avança cobrindo cada vez mais o cotidiano em suas mais minúsculas divisões. A necessidade de gerir a produtividade e os lucros elevou a saúde e os cuidados de si a um cotidiano olímpico, já não basta ter saúde, é necessário potencializá-la para aproveitar o sumo instante da vida. E o que é o instante da vida para o neoliberalismo senão consumir as “experiências” de uma vida supostamente desejada por todos?

Vejam tudo o que acontece em torno da sexualidade e do medo da degeneração: degeneração do indivíduo, da família, da raça, da espécie humana. Enfim, por toda parte vocês vêem esse incentivo ao medo do perigo. FOUCAULT, M. Nascimento da Biopolítica

Foucault analisou a obsessão de uma dada época em circunscrever a sexualidade nos corpos, nós podemos acrescentar outras obsessões – a saúde, a vida saudável, o bem-estar, a boa forma, a felicidade… As tecnologias de controle se atualizam e se diversificam, mas o fundo é sempre o mesmo: docilizar os corpos e torná-los produtivos.

O tabu que se colocava sobre a sexualidade descola-se agora para o açúcar, as gorduras e as taxas de colesterol. O s tabus passam da cama para a mesa. O glutão sente-se com frequência mais culpado que o adúltero. ORTEGA, F. O corpo incerto: corporeidade, tecnologias médicas e cultura contemporânea.

As tramas da vigilância se complexificam, criam novas hierarquias, dicotomias e mecanismos de exclusão. A vigilância de si estende-se aos demais. Os que praticam atividades físicas acusam os que não praticam, os que comem bacon acusam os que tomam chá-verde, fumantes são culpados por gastos de saúde pública, obesos são vistos como desleixados que não querem se cuidar, os magros acusados de magreza, os que estão tristes são excluídos porque são pessoas negativas quando a ordem é ser feliz e os que são tristes e tomam psicotrópicos são aceitos porque estão doentes e é bacana se cuidar com substâncias lícitas que dizem de uma condição social aceitável bem diferente dos que estão ao relento e encontram no álcool ou no crack a clemência de alguns instantes de bem-estar e os que comem carne e os que não comem se acusam entre si e a sociedade não para um minuto sequer para pensar no holocausto e no massacre, minuto a minuto, de animais.

Uma moral muito mais sofisticada que a das disciplinas da carne e dos prazeres instala-se sorrateiramente em todos os poros da existência. Nunca antes o corpo foi tão visado e ao mesmo tempo tão distante e despossuído de nós mesmos. A impotência política, afetiva e social evidencia a separação: o corpo não sustenta aquilo que não vive. A temporalidade própria que precisamos cultivar para encontrar um pouco de ternura que nos salve de tanto mal-estar de existir jamais conseguirá acompanhar o ritmo a ser desempenhado para estar em dia com as multiplicações do saudável – a dívida é infinita.

No culto à performance, felicidade, disposição para viver, desempenho sexual, bom humor, bem como os seus negativos, podem estar relacionados à ausência de alguma vitamina ou do colágeno extraído dos mariscos ou quem sabe do excesso de soja (que agora está condenada). Nunca se sabe, alimentos passam de heróis a vilões em questão de dias e implicam novos encadeamentos de cuidados com o coração, a produção de neurônios, memória, disposição, bom humor, etc.

by Steve Cutts

by Steve Cutts

Boa parte do sucesso da indústria do bem-estar e da boa forma se deve às injeções diárias de veneno feito sob medida.

Paradoxalmente, a sociedade que gere a saúde e a felicidade de performance é a mesma que torna os indivíduos repletos de doença e mal-estar. Come-se cada dia pior, toneladas de alimentos feitos com as sobras mais baratas – sódio, farinha com banho químico, soja, açúcares e aromatizantes – são processados com conservantes e embalagens que anunciam uma ou duas vitaminas que contam pontos no desempenho dos corpos. A indústria que alimenta a obesidade é também a que alimenta o fitness com seus suplementos que prometem corpos esculturais através de outros processados isentos de gorduras, talvez com um toque de cafeína, ou algum outro estimulante barato, pintado em letras douradas. A sociedade que demoniza os corpos gordos é a mesma que incita os indivíduos a se lambuzarem com porções extravagantes de alimentos com somas calóricas explosivas. Cigarros, bebidas, açúcares, cocaína, crack, maconha, anti-inflamatórios, proteína do soro do leite e do arroz, …

O espaço urbano é tomado por anúncios multicoloridos com diretrizes de gestão do corpo. Passe protetor solar para não envelhecer! Pratique ioga, cure sua alma! Matricule-se já e fique sarado para o verão! Ômega 3, a cápsula da longevidade! De A a Z todas as vitaminas para a saúde da sua família! Não fume! Não beba! Cientistas comprovam que quem não é feliz está mais propenso ao câncer: seja feliz! De leigos a profissionais, não há limites, todos são organizados de algum modo pela pletora do saudável.

As empresas também são vigilantes do corpo, promover o bem-estar é altamente rentável. A mão de obra em si do operário já não é o suficiente quando se pode fazer dele um colaborador capaz de vestir a camisa 24h, investi-lo de valores, instruí-lo quanto aos vícios e excessos e incentivá-lo à vida saudável, rentabilizando a boa forma da produção. Filósofos se tornam gurus – ou descobrem-se naquilo que sempre foram – para orquestrar grandes plateias, responsabilizando individualmente a performance com a boa forma do corpo e dos valores.

(…) o capitalismo reduz tudo ao estado de merda, isto é, ao estado de fluxos indiferenciados e descodificados, dos quais cada um deve tirar sua parte, de um modo privado e culpabilizado. É o regime da permutabilidade: qualquer coisa, em “justas” proporções, pode equivaler a qualquer coisa. GUATTARI, F. Revolução Molecular

As maneiras de como as diretrizes dessa saúde recaem enquanto controle na subjetividade individual e social são múltiplas e inesgotáveis. E há que se dizer que as mulheres são imensamente mais constrangidas pela ditadura dessa saúde de performance em todos os seus aspectos. Seus corpos são muito mais visados e dispostos enquanto objetos a serem valorados para um mundo dominantemente assentado sobre bases patriarcais.

Os corpos circunscrevem significações que rendem enquanto capital-saúde, capital-bem-estar, capital-sexual, capital-afetivo, capital-estético, … tudo é capital visado por empresários, seguradoras, mídia, políticos, diretores de recursos humanos, engenheiros químicos e nutricionais, profissionais da saúde, apresentadores e terapeutas de programas de variedades, espiritualistas, gurus, gestores públicos e especialistas de todos os tipos com seus pontos e contrapontos.

Fica impossível encontrar uma região da existência que ainda não esteja assujeitada aos axiomas performáticos da saúde. Antes mesmo de nascer, no útero, o indivíduo já é um potencial consumidor. Indústrias se organizam em torno da infância, da adolescência, dos eventos e rituais de passagem, nada escapa, das características da chupeta aos imóveis mais luxuosos, todos possuem atributos que apelam a alguma performance para a saúde do corpo.

(…) uma criança desde o seu nascimento, através da família, da televisão, da creche, dos serviços sociais, é “posta para trabalhar” e se engaja num processo complexo de formação, ao termo do qual seus diversos modos de semiotização deverão estar adaptados às funções produtivas e sociais que a esperam. GUATTARI, F. Revolução Molecular

O que há de errado nisso, quem não quer educação? saúde? bem-estar? um corpo sarado? A média de vida dobrou – dizem! Os resultados são óbvios, temos conforto, temos comida, temos… um aumento infinitesimal do controle sobre a vida – o que Foucault desenvolveu através dos conceitos de biopoder e biopolítica. Todo cuidado é pouco com as sempre boas intenções da vida saudável que podem vir de leigos ou profissionais, não importa. A ciência costuma ser colocada no lugar da religião de outrora, ela mesma inserida em uma complexa teia de relações de poder e saber. Pesquisas e resultados são financiáveis e destituídos de ética, prestando serviços às máquinas burocráticas. Procure um especialista, dizem, mas o especialista tem ocupado o lugar da verdade e se especializado em seguir protocolos: de que lugar ele fala? Para que/quem serve o nosso conhecimento? – Nem todos fazem esse exercício.

Na busca obsessiva pelo bem-estar os indivíduos se enchem de mal-estar. Querendo encontrar a saúde perfeita, encontra-se com uma diversidade de possíveis problemas. Tanto mais se quer a vida colada na performance da saúde mais frustrações são geradas. Contudo, aprendemos com Nietzsche e Spinoza que é impossível alguém estar em condições de dizer o que melhor irá se compor conosco. Sabemos muito bem que determinados alimentos, substâncias, práticas e modos de viver podem aumentar a nossa potência de agir à medida que se combinam com nossos corpos.

Nesse sentido, acusar o corpo, suas estéticas e suas práticas, a saúde, os avanços da ciência, ainda que muito disso possa estar a favor das máquinas de produzir culpa e dívida, é incorrer no outro extremo. Temos propensão a acusar tudo que é corpo e elevar as ideias a planos superiores, exaltamos a beleza interior, esse estofo repleto de valores platônicos e cristãos. Esse texto não quer estar no extremo daqueles que acusam os músculos, a maquiagem, as linhas, as curvas, a estética, a determinados modos de alimentação e tudo o mais que possa estar relacionado a uma saúde, aqui entendida, como singular e diretamente relacionada àquilo que possa aumentar nossa potência de agir. Há aqueles que passam horas na academia com barras e halteres, outros, com livros e metafísica: consideramos que nenhuma atividade em si é boa ou ruim. Importa como os indivíduos se relacionam e se compõem junto à alteridade e a produção material de uma época que pode servir para agenciar modos de viver mais alegradores ou mais entristecedores, o problema é quando frequentamos a posição de assujeitados diante do desejo do outro, tornando-nos reféns de determinados modos de viver.

O evidente interesse da tirania da saúde, do bem-estar e da boa forma jamais foi a expansão da vida, mas a exploração máxima de mais-valia sobre e através da vida. Nunca se buscou tanto a performance dos corpos, mas a sensação de tibieza percorre o clima afetivo das multidões pelas cidades preenchidas com solidão e pixels de alta resolução. De nada adianta tanta performance justificada pelos adágios de uma saúde olímpica quando se pode colocar em questão: a quem pertence os nossos corpos?

Cabe a cada um de nós apreciar em que medida – por menor que seja – podemos contribuir para a criação de máquinas revolucionárias políticas, teóricas, libidinais, estéticas, capazes de acelerar a cristalização de um modo de organização social menos absurdo do que o atual. GUATTARI, F. Revolução Molecular

by Jean Jullien

by Jean Jullien


1. De modo geral, a saúde de que se fala no texto não está separada de suas discursividades de bem-estar e boa forma.

* Arte da capa: Classificação Científica das Obesidade, Fernanda Magalhães.

Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.