Psicologia

A linguagem corporal do rosto

Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra

O rosto não é um invólucro exterior àquele que fala, que pensa ou que sente. A forma do significante na linguagem, suas próprias unidades continuariam indeterminadas se o eventual ouvinte não guiasse suas escolhas pelo rosto daquele que fala (“veja, ele parece irritado…”, “ele não poderia ter dito isso…”, “você vê meu rosto quando eu converso com você…”, “olhe bem para mim…”) – Deleuze & Guattari, Mil Platôs v.2

O rosto fala, se comunica, diz, escuta, posiciona, identifica, marca, silencia, exerce… Um rosto comandado pelo Eu é um rosto que se comporta. Esse rosto nos captura na medida em que está ancorado sobre significações, o outro recebe essas significações e nos devolve um comportamento, e assim vamos nos comportando, todos presos em sentidos mais ou menos utilitários, pré-significados.

Mas quantos rostos há em um rosto? Muitos outros rostos possíveis, rostos que nos impactam pela beleza ou pelo terror, que nos assombram porque não conseguimos colocá-los, facilmente, em uma identidade, e, no entanto, muita coisa se passa.

Pode se viver a eternidade nos traços de um rosto. Um rosto pode ser um labirinto do tempo do qual nos perdemos enquanto tentamos nos tocar com os olhos. Um rosto que não está se comportando pelo Eu, um rosto que se desfez das coordenadas significantes-significados impacta de imediato, sentimos suas forças nos puxar, desde que nós mesmos não estejamos tão atolados nos pântanos do verbo.

Mundos belíssimos e mundos terríveis podem se passar por um rosto sem Eu. O olhar se prostra. Tantos rostos possíveis… Em meio ao grande rosto-econômico da multidão há rostos-pulsão, rostos-afectivos – rostos sem Eu. Sentir-se puxado por essas forças é algo indescritível. Esses rostos são capazes de abrir bosques em meio a cinza-morte do concreto civilizatório.

O cinema pode nos proporcionar esses momentos terríveis. Em O homem de Londres (A Londoni Férfi) de Béla Tarr pode-se perder em Henriette (Érika Bók). Seu rosto está a meio termo do comportamento e dos afetos, um rosto-pulsão carregado de um sofrimento que o Eu não responde mais, um sofrimento que se desfez da biografia pessoal para mostrar-se enquanto força, há muita beleza e muito horror percorrendo a geografia do rosto de Henriette, contudo, um labirinto cuja doce atração pode levar nosso próprio rosto se desfazer de suas roupas.

Sobre o autor

Adriel Dutra

Adriel Dutra

Tem formação em psicologia, mas antes de tudo é formado pelos amores e desamores que vive, pelos livros, pelas músicas, pelos autores, pelos filmes, pelas poesias e pela arte que o fizeram, principalmente, sentir. Tem como hobbie ficar observando detalhes que ninguém costuma ver, encontra-se beleza demais nessas frestas.